E-book 2 Eles e elas

Atenção: Esta é uma obra de ficção, os nomes e as imagens são meramente ilustrativa e não tem nenhuma relação com pessoas ou acontecimentos da vida real.

Ele e elas.

Capitulo 1

Ele

Joca.

Este era seu nome e é a sua estória que vamos conhecer. Joca deixou o carro no estacionamento e foi em direção ao conjunto de lojas que havia no outro lado da rua, sabia exatamente o que queria e onde encontrar. No meio do caminho percebeu que deixou sua carteira e todos os documentos no carro e pior ainda, não lembrava se tinha travado as portas do carro, mas, ele que sempre fora tão cuidadoso, tão meticuloso com esses detalhes, de repente achou que nada disso importava, só tinha um pensamento: comprar um lindo buquê de flores e escrever uma mensagem mais linda ainda. Colocou a mão no bolso tinha umas notas para as flores e para as fotos e de qualquer forma estava sem vontade de retornar até o carro e ver se tinha travado as portas, além do mais achava que tudo seria rápido.

“Acho que não vou demorar”. Como este pensamento ele entrou em uma daquelas máquinas que tiram várias fotos em sequência, fez umas 4 poses diferentes; normal, um pouco mais sério, uma pensativo e uma bem descontraído. Tinha colocado as moedas na máquina e aguardou o resultado. Quando pegou aquelas fotos e olhou sua expressão em cada uma delas, ficou satisfeito, era exatamente o que queria, uma sequência de fotos que mostrasse um pouco de sua personalidade “ se bem que personalidade não aparece em fotos” na verdade o que apareceu foi sua beleza. Sim Joca era um homem extremamente belo. Os cabelos bem alinhados, não muito curto, a pele lisa, os olhos castanhos, mas muito vívidos, a boca um pouco pequena para um homem, mas de linhas suaves e perfeitas. Na verdade, Joca nunca se apercebera de sua beleza, nunca parara para pensar no efeito que causava nas mulheres que tinha contato ou até mesmo na inveja que os homens sentiam ao ver que ele não precisa fazer o menor esforço para agradar o sexo feminino.

Estava contente com o resultado, colocou mais umas moedas na máquina e apertou um botão escrito “copia” apareceu a mensagem “imprimir novamente “ ele apertou sim e saiu mais uma tira com as 4 fotos anteriores. Com as fotos na mão, foi a floricultura, escolheu algumas flores e solicitou que se fizesse um buquê. Joca tinha muito bom gosto para coisas belas e singelas e ficou um pouco triste ao lembrar que as pessoas não compravam e nem davam flores.

Com aquelas lindas flores e as fotos só faltava escrever a mensagem e entregar a sua amada.

Ele precisava de um lugar calmo. Lembrou de um café que havia naquela mesma rua, ficava no segundo piso de um casarão antigo, as mesas ficavam em uma sacada e poderia olhar o movimento da rua. Adorava olhar as pessoas quando estas não estavam dando conta de sua (dele) existência. Sim, isto era uma coisa que o perturbava a algum tempo. Ele notava que as pessoas pareciam ser “umas” quando estavam levando sua vida normal, de emprego, família, transito e todas estas coisas do dia dia de cada um, mas pareciam se tornar diferente, eram “outras” quando interagiam com ele. Era uma coisa que ele percebia, mas não conseguia explicar. Achava que talvez fosse só sua imaginação, mas o que ele não sabia é que não era sua imaginação, as pessoas realmente mudavam ao ter contato com ele. Era por causa de sua beleza externa e da bondade interna que ele exalava, mas não tinha consciência disso.

Subi os degraus do casarão e ficou feliz quando conseguiu atravessar o salão do café até a sacada e sentar em uma mesa que dava uma visão privilegiada da rua. Sentiu que todos do café notaram sua presença, mas achou normal, afinal estavam com flores lindas e não é todo dia que se vê um homem carregando flores, ficou triste novamente com este pensamento “ os homens deviam comprar mais flores, dar mais flores, devia ser normal ver homens com flores para sua amada” balançou a cabeça, queria tirar todo e qualquer pensamento melancólico do seu interior, pois iria escrever uma mensagem e esta mensagem tinha que expressar todo seu amor.

Colocou as fotos na mesa, mas não achou as cópias, tudo bem não tinha problema só não poderia errar na escrita, pois não haveria segunda chance. Pensou nisso “ não haveria segunda chance” pegou as 4 poses uma em cima da outra, não quis separa-la e no verso delas começou a escrever. Com calma, com ternura, as palavras foram fluindo como um rio ora sereno e lento, ora rápido e avassalador, mas a mensagem ficou do jeito que ele esperava, leu e releu várias vezes, olhou para as fotos novamente, cada traço do seu rosto, imitou novamente cada pose a medida que as fitavas. Quem olhava de longe, nas outras mesas, intimamente se perguntava, quem seria ele? Para quem seria as flores? O que estava escrito no papel que ele segurava?

Olhou na mesa, havia uma xicara de café com leite, que ele solicitou ao entrar no recinto. Alguém trouxe e colocou em cima da mesa, estava tão absorto ao escrever atrás das fotos que não percebeu quem o havia atendido. Tomou o café enquanto esquadrinhava todo o salão, mas os garçons e garçonetes estavam todos ocupados e não havia a menor possibilidade de saber que o atendera, mas também para que saber?

Foi até a sacada observar o movimento da rua, aquela mesma sensação gostosa de poder observar, sem que as pessoas mudem seu comportamento, ou sua rotina por causa de sua presença, vez ou outra alguém na rua levantava o olhar e ao vê-lo na sacada com um buquê de flores, dava uma interrompida no seu passar, mas era coisa de alguns segundos, ninguém se detinha de verdade para aquela cena, afinal podia ser qualquer pessoa naquela sacada e todos estavam super ocupados.

Segurando o buquê com uma das mãos e as fotos na outra, começou a ensaiar o que iria dizer quando de repente uma mamangava, uma espécie de abelhão preto, começou a voar em volta das flores e de sua cabeça, Joca era muito culto, sabia que aquele tipo de abelha dificilmente ferroava alguém, mas sabia também que caso ela o fizesse, a dor seria muito intensa. Ele balançou as flores para espantar o inseto, mas isso teve um efeito contrário do desejado, a mamangava começou a voar mais rápido e investiu contra a cabeça de Joca.

Aquela cena de um lindo homem na sacada com um buquê de flores se transformou, para os que passavam na rua, em uma cena caricata de um homem abanando um ramalhete de flores de forma desordenada e algumas pessoas pararam para ver a cena. Afinal nem todos estavam assim super ocupados.

O inseto fez um rasante e depois se afastou rapidamente, voou para longe, mas Joca estava com os olhos fechados e continua a agitar os braços quando sentiu que o buquê escapou de sua mão, em um reflexo de milissegundos, tentou pegar com a outra mão, mas estava com as fotos e o gesto foi pior que a encomenda, além de não conseguir pegar o buquê, Joca deixou cair também a foto com mensagem atrás.

Tudo tinha ido tão bem até aquele momento e daquele momento em diante parecia que as coisas começavam a sair do controle.

Virou-se para o salão e tomou uma decisão, o jeito era sair correndo e tentar recuperar as flores e a fotos em algum lugar daquela rua movimentada. Deixou uma nota em cima da mesa e disparou.

Todos no salão observaram aquele homem, tão elegante, tão bonito, antes emoldurado por lindas flores, agora atravessar o salão todo despenteado, em uma corrida estabanada, sem nenhum glamour. Realmente o dia hoje prometia.

Ao chegar no corredor, Joca errou as escadarias, em vez de sair para esquerda que dava acesso para a rua. Joca virou para a direita que era uma escadaria de serviços que ia para a lateral do prédio, onde se depositava o lixo a ser recolhido ou se recebia as entregas para o café. Joca não se apercebeu disso, mas também não importava, pois no primeiro degrau ele sentiu pisar em nada e se desequilibrou, iria cair, mas não tinha problema iria levantar e ir atrás de suas flores. As coisas não são tão fáceis assim quando se está caindo, primeiro ele sentiu o ombro esquerdo bater em um degrau, depois rolou mais um pouco e sentiu que suas pernas passaram por cima dele, o ombro latejou e sua canela bateu forte em outro degrau. Parecia que agora as flores não eram tão importantes, tinha que se recompor, ficar em pé novamente, mas em vez disso seu corpo aumentou a velocidade e ele bateu forte novamente com as costas. Sentiu uma pressão nos pulmões e uma forte dor nas costelas, depois uma forte pancada na cabeça. Agora parecia que tudo estava mais devagar, apesar de seu corpo continuar rolando escada abaixo em alta velocidade, as imagens passavam lentamente, parecia que não caia mais e sim que flutuava. Tinha esquecido das flores e das fotos, tinha esquecido da dor. Tinha esquecido de tudo.

 

 

Capítulo 2

A florista.

Bárbara.

Nesse momento, na floricultura, Barbara estava indo no balcão arrumar as flores, fazia isto sempre que um cliente saia da loja, ”eles costumam deixar as flores desarrumadas” pensou, mas sabia que isto era somente uma desculpa para ter o que fazer, primeiro que cada vez entrava menos clientes na sua loja, segundo que normalmente os clientes não desarrumavam as flores e por último aquele cliente que comprou flores agora há pouco, se mostrou bastante educado, mexendo com muito cuidado nas flores, sem desorganizar nem um pouco, na verdade ele até deu uma organizada em alguns vasos. “Como o mundo precisava de mais homens assim” pensou, “organizados, cuidadoso com as plantas, bonito, Ops, bonito? “ Riu para si mesmo e continuou a organizar os vasos “ sim bonito, o que havia de errado em achar alguém bonito? ” Continuou sorrindo, quando notou no chão uma tira de papel, pegou com cuidado e seu coração deu uma disparada, eram 4 fotos daquele cliente que havia comprado o buquê de flores, 4 poses e em cada uma delas ele ficava cada vez mais lindo aos seus olhos. O primeiro pensamento foi de guardar a foto no caixa e devolver se ele retorna-se para procurar a foto. Começou a imaginar a cena, a conversa, alguma frase espirituosa para dizer, um elogio sobre as poses, sem perceber estava sonhando e estava ficando feliz. De repente parou, seu coração também deu uma paradinha, e se ele não voltasse? Ficaria com a foto, mas não queria ficar com a foto, queria ver aquele homem novamente, nem que fosse por alguns segundos, nem que fosse para dizer “ estas fotos são suas, você deixou cair na minha loja, quando comprou flores esta manhã” e com um pouco de sorte talvez engatar mais algumas palavras tipo “ você ficou muito bonito nas fotos” ou “as flores? A pessoa que recebeu gostou” e assim ter uma pista para quem eram aquelas flores. Enquanto pensava o tempo passava, talvez ele estivesse por perto ainda, talvez já estivesse longe, tinha que fazer alguma coisa imediatamente. Foi em direção ao fundo da floricultura, onde ficava o escritório, seu pai deveria estar ali, entrou, a sala estava vazia, melhor assim, quando seu pai estava no escritório, entre notas e contas, estava sempre triste ou preocupado, os negócios não iam bem e a cada dia ficavam pior. Aquela floricultura foi idealizada por seu pai e sua mãe assim que casaram, eram uma época de muitos sonhos e Barbara nasceu e cresceu ali. Agora que sua mãe não estava mais com eles e os negócios não andavam bem, seu pai costumava estar triste, mas se ele não estava no escritório, com certeza estaria na estufa e lá ele era um pouco mais feliz, era lá que ele e a mãe de barbara passavam mais tempo e ela achava que ele gostava mais da estufa justamente para matar um pouco da saudade de sua esposa, recordar os momentos que passaram juntos.

Barbara entrou na estufa, seu João, estava cuidando de minúsculas mudas, que ele tratava como bebes, ela ficou observando, não tinha ensaiado nada para dizer em relação ao cliente que acabara de sair por isto foi direto ao assunto:

– Pai, sabe aquele moço que esteve agora a pouco e comprou um buquê com diversas flores?

– Sim minha filha. Oque houve? Seu João começou a imaginar coisas ruins, tipo ele veio devolver ou algo assim. Barbara já conhecia o pai e falou logo em seguida:

– Ele deixou cair estas fotos.

Seu João ficou aliviado e falou quase que automaticamente.

– Deixe no caixa, se ele voltar para buscar você devolve.

Ela tinha imaginado esta resposta e disse tentando para ser casual, mas sua voz saiu com um pouco de ansiedade e seu João logo percebeu.

– Não faz muito tempo que ele saiu, o senhor não acha melhor eu dar uma volta aqui nas ruas da frente para ver se eu encontro ele.

Não, seu João achava melhor que ela ficasse ali, junto dele, para sempre, mas sabia que barbara queria sair, resolveu dar uma endurecida para ver até onde ia a ansiedade da filha.

– Mas barbara, a rua está muito movimentada hoje, dificilmente você vai encontrar ele, além do mais a loja vai ficar sozinha.

Aquele tinha sido um golpe baixo. Quando disse a loja, estava querendo dizer ele, sempre apelava para este expediente para manter a filha perto, sentiu-se um pouco culpado, mas já tinha falado. Torceu para ela desistir da ideia.

– Eu vou rapidinho, se eu não encontrar ninguém volto logo, o movimento está fraco se a loja ficar sozinho uns minutos não vai ter problema, além do mais foi um ótimo cliente se entregarmos as fotos, que podem ser importantes para ele, talvez ele venha mais vezes aqui.

Ela tinha usado todos os argumentos, seu João percebeu que ela realmente queira tentar ver aquele homem novamente e isto o deixou preocupado e falou:

– Eu ainda acho melhor deixar no caixa para caso ele voltar, mas se você quiser ir pode ir.

Tinha deixado nas mãos de sua filha a decisão, sabia que um dia o coração dela ia bater diferente e seus argumentos seriam fracos para mantê-la junto a ele, preferiu não lutar contra o destino. Barbara hesitou, mas olhou para foto, bem aquela que Joca sorria e sua respiração ficou um pouco ofegante, tentou disfarçar, mas era tarde, falou para seu pai:

– Pai eu prometo que eu só vou até a rua principal e se não encontrar nada eu volto.

Seu pai sorriu, ele sabia disso, mas e se ela encontra-se. Beijou a filha e tentou se mostrar natural.

– Então corre menina se não ele vai embora, não podemos perder este cliente.

Ela sorriu. Tirou o avental e foi para frente da loja, procurou lembrar para que lado ir. Para esquerda havia um estacionamento e poucas lojas, o normal seria deixar o carro no estacionamento e ir para o outro lado onde tinha mais movimento, mais loja, mais chance de ele estar para lá, porém mais difícil de ser encontrado. Seu pai tinha razão, a chance de encontra-lo era mínima, andou um pouco a esmo e de repente, em frente a um café, viu um aglomerado de pessoas, foi em direção e ficou do lado de cá da rua em relação ao café, estava ao lado de uma moça, que ela sabia que efetuava pequenos furtos na região, mas que sempre procurou trata-la bem pois sabia que ela era órfã e cuidava de seu irmão, mas não percebeu atrás de si eu, Taj e Sandy que segurava um lindo buquê de flores que havia caído em seus braços. Todos os olhares estavam em direção a porta do café e ao movimento de uma ambulância que tentava abrir caminho entre os curiosos, a enfermeira da ambulância sabia que a vida daquele homem dependia de eles chegarem ao hospital o mais rápido possível, mas os curiosos atravancavam o caminho. Abriu um pouco a janela da ambulância e gravou a cena, duas moças muito bonitas, uma delas um pouco malvestida, mas ainda assim bonita e atrás dela uma outra moça com um buquê na mão. “ Vão cuidar de suas vidas e deixem o trânsito livre para podermos cuidar da vida de quem precisa” pensou, e seu olhar cruzou com o olhar daquelas 3 moças novamente.

Barbara olhou para a moça que praticava pequenos furtos e lembrou do pai que ficou sozinho na loja, voltou o mais rápido que pode e na pressa de voltar não notou que estávamos atrás dela, eu, Taj e Sandy com o buquê de flores que ela havia vendido.

De qualquer forma era muito provável que nossas vidas iriam se cruzar novamente.

 

Capitulo 3

A ladra

Camila

Nesse momento, no estacionamento, Camila recebia olhares desconfiados de quem saia ou chegava nos carros estacionados. O medo e a desconfiança das pessoas não permitia a elas verem a beleza daquela moça. Ela tinha o corpo perfeito, o cabelo liso e um sorriso que emoldurava o rosto lindo, mas as pessoas enxergavam uma ladra, as roupas sujas, parecendo um menino, o boné para trás, o tênis e o mascar dos chicletes, faziam com que todos a evitassem em vez de admira-la, mas não era culpa deles, hoje em dia todos temem ser assaltados e estava na cara que aquela moça estava rondando o estacionamento esperando uma oportunidade.

Camila estava nas ruas desde os 14 anos e foi com pequenos furtos que consegui sobreviver e ajudar o seu irmão, o pequeno José, também a sobreviver até hoje, apesar de roubar, tinha responsabilidades e fazia de tudo para poder pagar o colégio de seu irmão. Sim queria que o seu “brother” tivesse um futuro melhor e achava que se os pequenos roubos fossem para matar a fome ou pagar o colégio então não estava fazendo nada errado “só roubo o que me falta e o que os outros tem de sobra” pensava.

Camila, tinha visto um homem muito bonito sair do carro, depois percebeu que o carro não tinha sido acionado as portas automaticamente e nem feito aquele barulho de duas buzinadinhas quando o alarme é acionado, “pode ser uma oportunidade ou uma armadilha” pensou, sim ela rodeava os estacionamento a procura de um carro com o vidro aberto, ou vasculhando o chão para ver se achava alguma coisa de valor, é claro que se fosse preciso ela sabia abrir um carro, mas evitava fazer isto, em sua lógica, arrombar um carro era roubo, agora se alguém esquecesse um vidro aberto e alguma coisa sumisse do carro daí era descuido. Aquele homem tinha chamado atenção dela, por isto quando ele passou perto dela, ela fingiu estar procurando algo em sua “bolsa” de mulher, que era mais um saco de pano parecido com estes de entregar jornal. Quando ele passou ela levantou o olhar e observou o jeito de andar daquele homem, era calmo, era gracioso, era diferente dos demais que andavam com pressa e a evitavam. Depois foi se aproximando do carro, o alarme não tinha sido acionado, as portas não estavam travadas. Chegou mais próximo ainda e tremeu, um misto de emoção e medo. A chave do carro estava na ignição, a carteira dele estava em cima do painel do carro. Aquilo começou a ficar estranho, podia ser uma armadilha, podia ser um policial disfarçado, deixando tudo muito fácil para que ela pudesse apanhar e eles pudessem apanha-la. Tremeu novamente pensando nisso e no irmão que iria chegar da escola e dependia tudo dela ainda. “Uma armadilha, acho que não” pensou, “afinal quem deixaria o carro totalmente aberto com a carteira em cima do painel? ” “Aquele homem. Aquele homem que eu vi passar deixaria” teve uma ideia, aproximou do carro abriu a porta pegou a carteira, até ali era um furto, mas se alguém a flagrasse ia alegar que sabia quem era o dono e que pretendia devolver antes que alguém roubasse, ia ser difícil de alguém acreditar, mas no seu íntimo era isto que queria realmente fazer. Após pegar a carteira e a chave do veículo, fechou as portas, travou-as e acionou o alarme. Neste momento ouviu uma sirene na rua principal, em outros tempos teria entrado em pânico, mas as ruas a ensinaram duas coisas, a primeira: quando você estiver fazendo algo errado e ouvir uma sirene deve permanecer calma ou no máximo demonstrar curiosidade, é isto que as pessoas que não estão fazendo nada errado fazem quando ouvem uma sirene. Entrar em pânico é o que as pessoas que estão fazendo alguma coisa errada fazem quando ouvem uma sirene. A outra coisa que as ruas a ensinaram foram diferenciar as sirenes e aquela que ela estava ouvindo não era de polícia, era de ambulância. Calmamente e tentando demonstrar curiosidade, apesar de que realmente estava curiosa, foi se dirigindo para a rua principal onde alguma coisa estava acontecendo, pois, as pessoas começavam a se aglomerar na beira da calçada. Enquanto caminhava ficou pensando sobre aquilo “ fingir que está curiosa, quando se está curiosa mesmo” estava ficando cansada daquela vida de mentira, porque não podia levar uma vida de verdade, sabia que era bonita, aqueles que olhavam para ela deixavam isto transparecer, mas se sou bonita porque tenho que me vestir como um lixo? Começou a ter esperança que talvez aquele homem que esqueceu a chave fosse a resposta para suas perguntas, talvez fosse a solução para os seus problemas. Sua parte boa começou a sonhar com um homem que a tirasse das ruas, que lhe desse um lar e que amasse a ela e ao seu irmãozinho e sua parte ruim começou a arquitetar um plano para extorquir aquele homem fosse ele quem fosse e no meio dos sonhos e planos maquiavélicos, ela foi se aproximando do foco do acontecimento até que percebeu a ambulância de atendimento emergencial parada em frente ao café. Do seu lado estava aquela moça da floricultura, que sempre tratava ela bem e que por isso ela nunca pensara em rouba-la, muito pelo contrário muitas vezes discutiu com pequenos marginais que planejavam assaltar a floricultura e sempre que, durante a noite alguém rondava a loja de flores, ela fazia algum barulho para atrapalhar ou sabotar as intenções desses “alguéns” de fazerem mal aquelas duas pessoas, a florista e ao seu pai. Na verdade, sempre dizia ao seu pequeno irmão que se algum dia alguma coisa acontecesse a ela, ele deveria procurar a florista. Camila olhava a florista e sorria e depois percebeu atrás de si eu, Taj e Sandy que segurava um lindo buquê de flores que havia caído em seus braços. Quando a ambulância passou em frente a ela, pode notar uma enfermeira muito bonita que olhava para aquelas pessoas na calçada, seus olhares se cruzaram e Camila teve a impressão que aquela não seria a única vez que isto iria acontecer.

 

 

Capítulo 4

A sonhadora

Sandy.

Nesse momento, no outro lado da rua, eu, Taj e Sandy estávamos circulando por ali, pois iríamos fazer uma matéria para a revista sobre o movimento daquela rua, as principais lojas, os edifícios com os mais variados profissionais liberais, os cafés, a origem do nome da rua e etc, etc, etc… Eu sempre gostei de fazer este tipo de matéria, mas aquele dia, aquela rua, estava insuportavelmente cheia e enquanto Taj e Sandy decidiam por onde começar eu olhava o movimento de pessoas apressadas e em todas as direções, curiosamente, no meio de tanta gente, uma pessoa me chamou a atenção, ele carregava um buquê de flores e andava mais lento que todos naquela rua, sua imagem parecia um clip na minha mente, daqueles que as imagens passam rapidamente e para alguém ou alguma coisa se movimenta mais lento para que se tenha destaque e era exatamente isto que acontecia, o colorido das flores, a calma com que ele caminhava e principalmente a sua estatura, sim, ele era alto e bonito e todos estes fatores o destacaram em minha frente. Depois perdi ele de visão, talvez tenha entrado no café, talvez tenha dobrado a esquina, talvez eu nunca mais o veja.

Taj decidiu começar pelas lojas de roupas e Sandy concordou, mas na verdade era um complô feminino, elas queriam unir o útil, fazer a matéria, ao agradável, visitar lojas e olhar vitrines. Depois viria as lojas de sapatos e mais lojas de roupas, senti que meu dia ia ser chato e tentei escapar logo de cara, mas Taj percebeu minha intenção e já se adiantou.

– Vai ser rápido e depois nós podemos ir naquele café no outro lado da rua.

– Ótimo. Respondi, mas não muito esperançoso de que seria rápido.

Elas entraram na primeira loja e eu, sorrateiramente, fui ficando próximo a entrada, assim poderia continuar a apreciar o movimento da rua e ao mesmo tempo não abandonar minha função naquela matéria.

A rua continuava movimentada e comecei a fazer uma coisa que eu adoro. Escolher alguém no meio da multidão e fica-la observando, sem interferir em suas atitudes, mas tentar acompanhar as suas intenções. Havia bastante gente na rua, seria fácil escolher alguém, então, meu olhar se deteve em uma moça ruiva, muito bonita, ela se diferenciava na multidão pela cor do cabelo e também porque caminhava devagar, procurando alguém, logo atrás dela vinha também outra moça, andava meio desconfiada, com cautela mas era bonita só que estava mal vestida, parecia uma pivetona, imaginei que estava seguindo a moça de cabelo vermelho, talvez fosse assalta-la, comecei a acompanha-las, se houvesse um assalto eu queria testemunhar o desenrolar, mas a coisa não fluiu em nada, a moça ruiva continuava a andar lento procurando alguém e a moça de trás não fez menção nenhuma de assaltar apesar de que agora eu podia ter certeza tratar-se de alguém que vive nas ruas… Perdi elas de vista no meio da multidão.

Taj tinha razão, elas não demoraram muito na loja e em seguida estavam na porta ao meu lado. Taj disse:

– Vamos naquele café, lá de cima, na sacada dá para tirar uma foto panorâmica da rua para ilustrar a matéria.

Atravessamos a rua e quando estávamos chegando na calçada, uma coisa inédita aconteceu, do nada, vindo do céu um lindo buquê de flores caiu nos braços de Sandy e em seguida uma “tripa” com 4 fotos e uma mensagem atrás, Sandy demorou dois segundos para alterar sua expressão de surpresa para uma expressão de posse dizendo;

– Olha que lindo, que eu ganhei. E começou a olhar para foto. Eu olhei de relance para a foto e tive a impressão de ser aquele mesmo homem que caminhava tranquilo na multidão e se havia uma mensagem junto seria fácil esclarecer tudo aquilo. Taj olhou para Sandy e disse.

– Flores não caem do céu precisamos descobrir de onde isto veio. Depois olhou para mim e disse:

– Talvez não seja tão fácil assim.

Fui argumentar com Taj, mas me detive em Sandy, ela estava com olhos fixos nas flores, parecia hipnotizada e a sua volta nada mais havia. Seu olhar corria as linhas da mensagem atrás da foto, enquanto uma das mãos tocava lentamente as pétalas das flores, achei melhor deixar ela terminar de ler a mensagem Taj falou:

-Deve ter caído daquela sacada no café, vamos verificar.

Eu toquei no braço de Taj e apontei para Sandy, ela continuava no transe, estava olhando as fotos, realmente o moço da foto era muito bonito, depois olhava as flores, realmente muito bonitas, apesar de estarem um pouco bagunçadas. Taj ficou em silencio, os minutos passaram lentamente, o semblante de Taj foi mudando ela estava começando a ficar preocupada.  Sandy suspirou e disse:

– Eu esperei a vida inteira por este momento.

De que raios ela estava falando? Que momento, eu ia interromper, mas Taj tocou no meu braço, era um sinal típico entre nós que queria dizer “ fica quieto e escuta” sempre que isto acontecia eu obedecia pois nesses momentos realmente mais aprendi escutando do que falando. Sandy continuou:

– Eu nunca tive namorado, eu nunca tive um grande amor, mas sempre sonhei que um dia alguém iria cruzar o meu caminho e tudo isto iria mudar. Durante anos tentei ler os sinais que a vida me mandava, mas sempre soube que não seria alguma coisa sutil, sempre soube que seria algo arrebatador, direto, bem deste jeito, com flores, com fotos, com mensagem.

Mas a mensagem é para você? Está assinada? Pensei em perguntar, mas Taj apertou meu braço mais forte e este era o sinal que queria dizer “não abre esta boca agora” fiquei em silencio. Sandy continuou.

– Eu sei que vocês vão pensar que é loucura minha, pois eu nunca tinha dito isso antes, mas eu, eu espero este momento há anos, e ele veio exatamente como eu sonhei e eu não vou abrir mão desse amor.

Dito isto ela voltou ao transe, continuava a passar os dedos delicadamente pelas flores e a reler a mensagem atrás das fotos.  Eu olhei para Taj sem dizer nada, mas com um olhar que perguntava “e agora, decide você o que fazer e o que dizer” Taj estava confusa, não sabia como agir e de repente uma sirene de ambulância começou a soar forte e apareceu na rua movimentada, todos abriam espaço e ao mesmo tempo que se afastavam para dar a ambulância passar, se posicionavam para ver o que estava acontecendo. Taj percebeu que a ambulância vinha em nossa direção, deu um suspiro de alivio, ganhou tempo para saber como agir e delicadamente conduziu Sandy para o outro lado da rua. Mas aqueles momentos e aqueles movimentos para Sandy eram indiferentes, ela não percebeu mais nada a sua volta, estavam em um outro mundo, em um mundo de sonhos que se concretizavam em um buquê de flores, fotos e uma mensagem.

Fomos para o outro lado da rua, enquanto Taj tentava ver o rosto nas fotos que Sandy segurava, eu observava, em minha frente, aquela moça ruiva e ao seu lado aquela moça malvestida, muito bonita, se os outros não percebiam sua beleza eu percebia. Depois de um alvoroço no café vimos a ambulância sair, tudo muito rápido, tudo com urgência, mas no meio da urgência pude ver o rosto da socorrista da ambulância, ela olhava para nos na calçada e nossos olhares se cruzaram, ela era bonita e meu pensamento viajou, se um dia eu fosse socorrido por alguém queria ser socorrido por ela. Naquele momento nossos mundos se encontraram em uma calçada, o meu, o de Taj, o daquela moça ruiva e a outra moça malvestida, menos o de Sandy que estava em um mundo diferente. Em um mundo de sonhos.

 

Capítulo 5

Rafaela. A esposa e o cão

Nesse momento ela estava na cozinha, relembrando um pouco de tudo que tinha acontecido: não foi a primeira briga entre eles, mas foi de longe a pior. Foi a primeira discussão realmente forte em que João Carlos saiu de casa. Parou e pensou: quando o nome completo dele vinha a sua cabeça, João Carlos é porque ainda estava magoado com ele. Normalmente, quando se referia a ele, sempre usava o apelido Joca, que era como ele gostava de ser chamado e era como ela sempre o chamava nos momentos de maior cumplicidade entre eles. As palavras não saiam de sua mente e quando ele gritou e disse que era melhor sair de casa antes que fizesse coisa pior, ela concordou gritando mais ainda. “Isso mesmo JOAO CARLOS, saia agora mesmo, é bem melhor mesmo.

E pronto. Tudo tinha acontecido, ele abriu a porta, saiu, fechou a porta em silencio, sem alarde, sem bateção de boca ou de portas. Nenhum objeto foi quebrado, ninguém se machucou. Virgula, o coração dela estava em cacos, sua alma estava muito machucada. Agora, um pouco mais calma, mas não o suficiente para pensar nele como Joca, e sim como “JOÂO CARLOS” vai se arrepender e… depois chorou pois ela já estava arrependida. Súbito, em passe de mágica, se levantou e caminhou pela cozinha, “preciso organizar as coisas, os pensamentos,” este movimento era bem típico dela, gostava de ser racional, quando as coisas saiam de seu controle, rapidamente colocava as mãos na cabeça e raciocinava, “ eu preciso raciocinar” isto sempre deu certo em outras discussões, porque desta vez deixou que um fato meio que sem muita importância fosse tomando proporções maiores até que findou em um ato nunca antes imaginado  por ela “ João Carlos havia saído de casa, abandonado ela, a casa e o casamento”

– Não, não é possível. Começou a falar em voz alta pois quando os pensamentos não se encontravam, ela sabia que falar mais alto para si mesmo tinha um efeito esclarecedor. Conseguia pensar melhor ouvindo suas palavras:

– Foi só uma briga à toa, ele vai caminhar um pouco, pensar um pouco e voltar em breve, antes do meio dia estará em casa novamente.

Sorriu para si mesmo, estava dando certo, estava se acalmando, continuou falando agora usando uma estratégia meio forçada. Falou com voz propositalmente um pouco mais doce.

– Neste momento, meu Joca deve estar comprando flores, ele adora flores e adora me dar flores, com certeza vai voltar e pedir desculpas, se não pedir eu peço, pois para mim o importante é recomeçar e nunca mais deixar isto acontecer.

Estava dando certo, estava calma e resolveu passar o resto daquela manhã de forma mais natural possível, foi só uma briguinha boba concluiu.

Bruce, o cão da família, estava deitado, quieto, este era um indicativo que a discussão tinha sido forte. Sempre que eles discutiam, ele ficava deitado imóvel, com olhar triste. Rafaela tentou amenizar, sentou no sofá da sala chamou Bruce e começou a acariciar a cabeça dele.

– Não foi nada, Joca já vai voltar. O cão ficou mais feliz com os carinhos e com o som do nome de Joca.  Rafaela viu que estava dando certo e continuou falando, mais para si mesma do que para Bruce.

– Foi uma discussãozinha boba de duas pessoas que se amam muito.

Foi falando, falando e quando começou a se tornar repetitiva e começaram a faltar argumentos para continuar naquele transe confortador para si mesma, resolveu ligar a televisão e fez isto quase que instintivamente, na realidade quis dar a este gesto um ar de naturalidade, como quem diz, vamos ligar a tv para dar uma olhadinha no que está passando enquanto Joca não vem.

Olhou para tv sem dar importância para o que estava vendo, parecia a chamada de um destes jornais sensacionalista, estavam cobrindo um acidente ou um assalto em uma rua movimentada. Não importava para ela, ficou olhando sem interesse, uma ambulância saia da frente de uma cafeteria, a câmera deu um close na enfermeira que estava na ambulância e depois fechou nas pessoas que estavam no outro lado da rua, reparou duas moças lado a lado que chamaram sua atenção pela beleza de ambas e pela disparidade das roupas, enquanto uma estava bem vestida, com um vestido florido a outra se vestia com roupas parecidas de um menino, um pouco suja e surrada.

– Como tem pessoas diferentes, como gostos diferentes né Bruce, olhe aquelas duas moças lá Bruce, são bonitas, diria até lindas, mas se vestem em estilos bem diferentes.

Quanto foi apontar para a TV, para melhor orientar o olhar de Bruce, a câmera deu um zoom e focalizou uma moça mais atrás, com um lindo boque de flores, mas com o olhar perdido, deslocado daquele cenário de caos e barulho.

– Não deu para ver direito Bruce, mas aquela moça com flores era muito bonita e a flores também me pareceram lindas, mas vamos para a cozinha novamente, vamos preparar um almoço bem gostoso para quando o Joca voltar.

Estava feliz novamente, parece que não havia acontecido aquela discussão, mas um pensamento passou rapidamente pela sua cabeça “ e se ele não voltar? ”  Balançou a cabeça para esta pergunta sumir de sua mente, tinha que pensar em outra coisa rapidamente, começou a pensar na moça com um boque de flores no meio da multidão.

 

Capítulo 6

Thais A enfermeira e o médico.

Nesse momento ela estava totalmente concentrada no atendimento, aquele homem havia rolado da escadaria e estava com vários ferimentos, o mais grave era, com certeza na cabeça, um corte profundo. Provavelmente deveria ter alguma costela quebrada, e, pelos inchaços nas pernas e braços, provavelmente pelo menos um deles fraturado. Apesar de desmaiado, o homem respirava relativamente bem, o que era um bom sinal, isto meio que descartava uma parada cardíaca ou respiratória, mas era sempre prudente ficar atenta a todos os sinais. Enquanto prestava atendimento Thais lembrava do que seu amigo falava na sala de atendimento emergencial, doutor Nick meio que filosofava para si mesmo “ sabe, hoje o dia está parecendo que vai ser calmo, mas sabe, tens dias que são assim, começam calmo e depois tem o poder de revirar a sua vida” Thais ia perguntar se “a sua vida” era a dela ou a dele, mas o alarme tocou e uma vida precisava ser salva. Doutor Nick atendeu ao chamado, anotou rápido em um pedaço de papel e entregou a Thais, em seguida pegou o radiocomunicador e começou a passar as informações para o motorista da ambulância, em segundos a ambulância estava na porta do ambulatório emergencial Thais já estava no banco do caroneiro e Dr. Nick já estava se dirigindo para a sala de atendimento preparar todos os instrumentos e conferir os que já estavam preparados.

Enquanto se dirigiam para o local do acidente, Thais relembrava as informações, Homem ferido, queda escadaria, sem identificação etc… mas quando as informações passavam pela mente de Thais as palavras do Dr. Nick vinham juntas “… tem o poder de revirar a sua vida”.

Agora aquele homem já estava na ambulância, já estava imobilizado, sedado e a caminho do hospital. Thais começou a se questionar: Quem seria aquele homem? Porque não tinha documentos? Ficou imaginando como seria a vida daquele homem e de repente suspirou, e a minha vida? Se eu sofrer um acidente que vai se preocupar comigo? E as palavras do Dr. Nick voltaram mais fortes “… tem o poder de revirar a sua vida”. Olhou aquele homem com outros olhos, ele era muito bonito, o sangue no rosto e nos cabelos davam um ar de mártir, um herói ferido. No momento ela era a heroína que ia salvar a vida dele, depois ele iria retribuir salvando a vida dela. Pegou um lenço umedecido e começou a limpar o rosto daquele homem, antes limpara a cabeça dele como enfermeira vendo apenas o ferimento e a dor, agora começa a limpar o rosto como mulher tentando ver a expressão de seu herói sem os poderes, seu lutador nocauteado, seu guerreiro ferido em combate… “meu Deus!! Pensou, o que eu estou fazendo? Não estou sendo profissional, estou agindo como uma adolescente, eu não sou assim, minha vida não é assim …. E as palavras do Dr. Nick soaram baixinhas “… tem o poder de revirar a sua vida”.

Chegando no hospital tudo foi muito rápido, outras enfermeiras já esperavam e quando colocaram o paciente na maca, Thais se agarrou em uma lateral da maca e adentrou o hospital. Dr. Nick percebeu e apenas com um olhar, perguntou a ela porque ela estava acompanhando o paciente em direção ao cti, normalmente ela ficava na porta de entrada e deixava que as demais enfermeiras dessem continuidade, além do mais poderia surgir outro atendimento e ela era a enfermeira/paramédica/motorista/conselheira daquela unidade. Com o olhar, Thais respondeu “eu não sei, só sei que quero ajudar este homem. Dr. Nick dava ordens e começou a reparar que o rosto do homem estava muito mais limpo que a maioria dos feridos que normalmente chegavam ali, e reparou ainda que aquele home era muito bonito então olhou para Thais e na maior cumplicidade deu um sorriso.

Parte II

14:00 horas…

Thais e Dr. Nick estavam no refeitório, finalmente tinham um tempo juntos para conversarem, era o momento em que mais que colegas de profissão eles eram amigos, era também o momento que Dr. Nick dava uma desmunhecada. Sim ele era um excelente médico, dava ordens, conferia exames, conversava com pacientes e etc, mas na hora que relaxava, era gay assumidíssimo e era o melhor amigo de Thais, o melhor e o único.

– Quer dizer que você não sabe nada do paciente que você socorreu hoje minha linda ou está escondendo informação do tio Nick?

– Não, não sei nada, ninguém sabe, ele estava sem documentos e pelo que ouviu, enquanto o atendia, no café ninguém o conhecia. Ele vai ficar bem?

– Hummm preocupadinha? Não sei, é difícil dizer, a pancada na cabeça foi forte, as atividades celebrais estão um pouco prejudicadas, pode ser pelo efeito dos sedativos, pode ser o ferimento, temos que aguardar? Seu turno termina em duas horas, vamos sair hoje, dançar um pouco beber um pouco que tal.?

– Eu estava pensando em ficar no hospital, queria estar presente quando ele acordasse.

– Queridinha tô te estranhando, você nunca se interessou por nenhum paciente antes e este só porque é um pouco bonitinho, mentira minha é lindo, você tá toda preocupadinha, cuidado amiga, a dona dele deve estar preocupadinha também. Você vai cuidar mas vai ter que devolver.

– E se ele não tiver dona?

– Daí você vai ter que lutar com meio mundo de enfermeiras deste hospital, que estão bem pior que você.

E riu de maneira afeminada e divertida.

Ele estava com a razão. Se ficasse depois do horário iria chamar a atenção das demais enfermeiras, mas seu coração dizia para estar perto dele quando ele acordar? Quando ele? Ele? Quem era ele?

– Como vamos chamá-lo, já que estava sem identificação.

– Que tal Bruce?

-Bruce? Porque Bruce?

-Sei lá me lembra o Bruce Wayne, bonitão igual ao Batman e misterioso.

Deu outra risada e complementou.

– Quando o Bruce acordar, se você estiver por aqui, diga que o tio Nick mandou um beijão para ele e estima melhoras. Fuiii, que o meu horário já acabou.

Thais foi lentamente para o vestiário, ainda queria ficar, mas não queria despertar atenção das outras enfermeiras, pensou em ir embora e dar uma passada a noite ali, quando o efeito dos sedativos começasse a passar, mas teria que inventar uma desculpa, dizer que esqueceu algo quando uma colega sua que iria começar o turno entrou no vestiário, houve um cumprimento rápido e em seguida sua colega falou:

– Sabe de alguém que pode trabalhar para mim hoje, pois estou tenho um compromisso no colégio do meu filho e queria tanto ir, mas parece uma coisa, sempre que meu filho tem alguma coisa eu estou de plantão.

Thais tentou não demonstrar ansiedade e falou de forma mais natural possível:

-Se você quiser eu dobro e você trabalha amanhã para mim. O que você acha?

-Sério? Claro, muito obrigado.

Thais lembrou do Dr. Nick e aquelas palavras que ele tinha tido hoje pela manhã, como eram mesmo? Fez um esforço, mas tinha esquecido, engraçado, aquelas palavras tinham martelado a sua cabeça a manhã inteira e agora não conseguia lembrar delas.  Engraçado como as vezes a gente não lembra de nada.

Parte II Capítulo 1

14:00 horas… a esposa começava a ficar preocupada, já era para Joca ter retornado, ele sempre gostou de almoçar ao meio dia em ponto. Rafaela começou a sentir-se insegura, “ e se a nossa discussão foi pior que eu imaginei? ” “ e se ele não voltar?” Uma lágrima começou a rolar em seu rosto.  Neste momento percebeu quanto amava aquele homem e que só o pensamento de ele não voltar fazia ela sofrer como jamais imaginou que fosse possível. Sua vontade era sair correndo e pedir perdão, de joelhos, chorando, mas correr para onde. Tentou se recompor, “ talvez tenha acontecido alguma coisa com ele” “ sim isto mesmo, vou esperar até as 18 horas se ele não voltar irei procurá-lo nos hospitais, nas delegacias em cada canto desta cidade.”   Estava recomposta, uma lágrima insistia em escorrer em sua face mas estava a decidida a encontra-lo estivesse onde ele estivesse.

14:00 horas… a sonhadora começava a nos preocupar, Sandy não ajudou mais Taj a terminar a matéria, o que era para terminar rapidinho, já estava passando das 14 horas, e ainda faltava muito, desse jeito iríamos trabalhar até as 18 horas. Desde que aquele boquê caiu nos braços de Sandy, o mundo mudou, para ela e para nós. No começo, eu e Taj achávamos que era “loucurinha” “dá e passa” mas a manha tinha se arrastado deste jeito – Taj fazendo as matérias e eu conduzindo Sandy de uma loja para outra, ora tentando ser compreensivo, ora dando esporro dizendo que aquele boque não era para ela e que ela devia era esquecer tudo e trabalhar e ajudar Taj. Chegou um momento em que eu fiquei realmente preocupado e junto com Taj começamos a ver a situação por uma outra perspectiva: Sandy era carente de amor e durante muito tempo ela reprimiu este vazio, ela suportou a solidão agarrando-se cada vez mais no trabalho e na dedicação aos amigos, mas agora, de uma hora para outra, ela desabou. A coisa era mais séria do que imaginávamos e era nossa obrigação tratar de Sandy com seriedade, nós éramos os únicos amigos dela e ela sempre nos apoiou em todos os momentos. Perguntei para Sandy.

– Você acredita mesmo que este boque, estas fotos e esta mensagem sejam mesmo para você e que este pode ser o homem de sua vida?

– Sim.

Quando ela respondeu sim, havia tanta esperança, tanta certeza em seu olhar que eu e Taj mudamos totalmente nosso pensamento a respeito daquilo tudo e passamos a acreditar que o amor de Sandy tinha passado por perto e que era nossa obrigação encontra-lo estivesse onde ele estivesse, fosse quem ele fosse.

 

14:00 horas… a ladra.

Camila voltou para o estacionamento, ficou observando o carro parado, já havia passado bastante tempo e o dono não voltara, agora sabia que não era uma armadilha, tinha acontecido alguma coisa com aquele homem elegante que ela viu sair do carro. Começou a pensar nele e a sonhar, um homem assim que a amasse, que pudesse tira-la das ruas e ajudar a ela e a seu irmão, de repente a imagem daquele homem foi ficando mais nítida, seu coração começou a disparar e um fio de esperança começou a se fortalecer em se interior. Nunca antes tinha depositado seus desejos em algo ou em alguém e talvez fosse por isto que ela continuava nas ruas, vivendo de restos, sem poder dar um futuro melhor para si mesma e para seu irmão. Tomou uma decisão, uma firme decisão como nunca na vida antes tinha tomado. Iria procurar o dono daquele carro, se ele não voltou talvez alguma coisa tivesse acontecido, iria procurar nos hospitais, e como era uma decisão que nunca tinha tomado antes resolveu fazer uma coisa que nunca tinha feito antes. Iria trocar de roupa, chega de andar suja, de parecer o que ela era uma andarilha para parecer o que ela realmente deveria ser, uma linda mulher. Pensou na moça da floricultura, ela tinha o mesmo manequim que o dela e com certeza teria um vestido para emprestar.  Com estas decisões em mente foi para a floricultura iria encontrar aquele homem e nele depositar seu futuro estivesse onde ele estivesse, fosse quem ele fosse.

14:00 horas… a florista.

Barbara estava atrás do balcão com o olhar fixo na porta de entrada da floricultura, tinha a esperança que a qualquer momento aquele homem iria entrar procurando as fotos e ela iria conhecer um pouco mais sobre ele. Sim, estava ansiosa e curiosa, nunca ninguém havia despertado tanto interesse nela quanto aquele homem. Sem saber que ele era desafio seu pai, sem saber onde ele estaria saiu procurando por ele, e agora mesmo não tendo encontrado, continuava com esperança e com vontade de revê-lo. Sim, definitivamente aquele homem havia despertado nela, algo há muito tempo adormecido, um desejo de lutar por alguém, de procurar por alguém, de se entregar por alguém.

Seu João estava dormindo um soninho costumeiro depois do almoço, a loja estava vazia “igual ao meu coração” pensou Barbara, depois ergueu os ombros e tomou uma decisão, não posso encher a loja, mas posso preencher o vazio do meu coração. Começou a dizer para si mesma “ já esperei demais, assim que meu pai acordar, vou inventar uma desculpa e vou dar uma volta na cidade, talvez encontre com aquele homem novamente” e teve uma ideia, olhar mais ainda para as fotos, para que aquele semblante fique bem nítido em sua mente e na primeira olhada que deu viu que não era preciso olhar tanto. Ele era lindo e aquele sorriso estava mais que nítido em suas lembranças. Só tinha que encontrá-lo e….

Alguém entrou na loja. Seu coração disparou e se acalmou. Era aquela moça que vivia na rua, ei espera aí, se ela vivia na rua talvez tivesse visto algo ou soubesse de algo? Pensou.

Camila chegou até o balcão onde bárbara estava e deu o seu sorriso mais amigo e tentou falar de forma mais natural possível, pois sabia que sua aparência afastava as pessoas e que normalmente não tinha oportunidade de conversar com alguém.

– Oi.

– Oi. Respondeu bárbara. Em que possa ajuda-la.

– Eu preciso de um favor seu.

– Se eu puder ajudar.

A resistência inicial tinha sido quebrada, Camila sabia que podia confiar em barbara e barbara sentiu prazer em poder escutar e ajudar Camila.

– Eu vou procurar uma pessoa e talvez ela esteja em um algum hospital da cidade, mas eu não posso ir assim. E apontou para a calça surrada e suja e explicou que talvez barbara pudesse emprestar um vestido

Os olhos de barbara brilharam, aquela moça em sua frente podia ser a irmã que ela sempre sonhou em ter. É claro que iria ajudar e quem sabe aquela moça não tinha visto o moço da foto e pudesse ajudar ela também. Pensou em perguntar, pensou em mostrar a foto, mas se conteve, “depois eu pergunto, primeiro vamos ajudar” e falou.

– Claro, pode contar comigo.  Mas primeiro você tem de tomar um banho, dar uma ajeitada neste cabelo lindo, você é muito linda sabia?

Aquele elogio tinha sido sincero e Camila se sentiu amada. Sua intuição estava certa, a moça da floricultura iria ajuda-la e se sua intuição continuasse certa ela iria encontrar aquele homem e sua vida iria mudar.

Barbara mostrou onde morava, atrás da loja, passaram pelo seu pai que dormia no sofá, entregou toalha e sabonete para Camila e disse para que ela tomasse um banho com bastante calma enquanto ela separava alguns vestidos para serem escolhidos. Camila agradeceu, entrou no banhou, sentiu a água morna caindo em seu corpo e melhor ainda sentiu felicidade. Parece que sua vida estava querendo mudar e algo dizia que mudaria para muito melhor.

Barbara também estava feliz, estava ajudando alguém, estava separando vestidos coisa simples que ela adorava fazer, mas seu pai, por ser homem não dava muita importância e, principalmente estava com esperança de encontrar aquele homem novamente, o rosto dele veio nítido em seu pensamento, sua vida iria mudar e algo dizia que para melhor.

Quando Camila saiu do banho ficou irradiante, havia seis ou setes vestidos sobre a cama, um mais lindo que o outro

– Meu deus que coisas lindas, qual deles eu posso usar?

Barbara também estava emocionada, alguém para compartilhar a felicidade em vestidos, alguém para conversar sobre coisas de mulher.

– Aquele que você escolher.

E começaram a provar, um após o outro, todos iam ficando perfeitos no corpo de Camila e cada vestido, mais abraços, mais reciprocidade, mais cumplicidades, pareciam duas antigas amigas, pareciam duas irmãs. Barbara começou a arrumar o cabelo de Camila, fez um penteado um pouco diferente, depois desmanchou todo, fez outro mais casual, riram, desmanchou novamente quando finalmente escolheram o vestido e terminaram de arrumar o cabelo Camila perguntou.

– Quer ir comigo procurar esta pessoa?

– Não posso, tenho de cuidar da loja, meu pai dorme a tarde, e eu preciso cuidar da loja.

-Não precisa não. Era seu João que havia acordado com a algazarra da duas, mas não estava bravo, muito pelo contrário, sentiu que a filha estava feliz e havia muito tempo que não via a filha assim.

– Então vamos escolher um vestido para você e fazer um penteado bem bonito. Disse Camila e algazarra recomeçou.

 

 

Parte II Capítulo 2

Na recepção do hospital

Barbara e Camila andaram o dia todo, só que mais elas estavam curtindo estarem juntas do que propriamente organizar um plano coerente para encontrar alguém, na verdade, inconscientemente, cada uma delas acreditava que o destino iria leva-la para perto daquele moço. Elas tinham ido nas principais ruas da cidade e em dois hospitais. Não tinham encontrado nada, faltava um hospital ainda e o coração das duas dizia que era neste que ele estaria. Barbara sentiu um remorso por não ter mostrado a foto de Joca e nem de ter contado que estava procurando por alguém por quem estava começando a se apaixonar. Camila sentiu remorso por não ter contato a barbara que estava procurando alguém que ela tinha visto no estacionamento, que ela tinha os documentos dele e a chave do carro. Mas este remorso foi bem passageiro em ambas pois o coração de cada uma dizia que o amor iria acontecer e deveria ser conquistado com todas as forças, e era isto que as impulsionava em direção a recepção daquele hospital.

Enquanto isto Taj ficou no escritório preparando o material e eu topei sair com Sandy, a esmo, tentando descobrir de onde tinha vindo aquelas flores e aquela carta. Minha intuição foi bastante logica, se as flores caíram elas vieram de cima. Voltamos a rua onde tudo aconteceu e minha intuição estava certa, as flores só poderiam ter vindo de cima, de uma das centenas de janelas, dos vários prédios que tinham naquela rua, próximo de onde nós estávamos, ia ser como procurar palha no agulheiro ou coisa assim, nunca fui bom com ditados. Ia demorar alguns meses, mas se batêssemos de porta em porta, de todos aqueles prédios, uma hora ou outra minha intuição ia achar uma pista.

– Eu lembro que logo após eu receber as flores, depois houve um tumulto com ambulâncias e tudo mais, acho que devíamos procurar nos hospitais, meu coração diz que aquele tumulto tem relação com o que procuramos. Falou Sandy.

Ora, entre o coração de uma moça pirada e a agilidade do meu cérebro para tirar conclusões sobre os fatos era muito mais acertado seguirmos o meu raciocínio, mas neste momento lembrei de Taj que sempre dizia para eu nunca contrariar uma mulher apaixonada e nem confiar muito nas minhas conclusões. Resolvi seguir o conselho de Taj, afinal, apesar de estar mais confiante em descobrir algo naquelas centenas de janelas, procurar em 3 hospitais da cidade seria muito mais fácil, apesar de improdutivo, mas o importante era não contrariar Sandy enquanto pensávamos como íamos lidar com esta “ loucurinha” dela.

– Ok, vamos procurar nos hospitais. Eu respondi.

Nos dois que nós fomos, não conseguimos nenhuma informação. Faltava um hospital e quando estávamos nos aproximando da recepção do último hospital, Sandy disse que o coração dela estava acelerado e que sua intuição feminina estava dizendo que o amor da vida dela estava por perto.

Segurei no pulso dela e perguntei.

– Coração acelerado, pode ser princípio de infarto, já que estamos perto do hospital você quer que eu chame um médico.

Ela não me ouviu, seus olhos brilhavam e seus passos aumentaram em direção a recepção.

Em casa, Rafaela a esposa, já tinha perdido a esperança que sua discussão com Joca tinha sido uma coisa banal. Agora ela já começava a fazer conjunturas sobre o que pudesse ter acontecido.  Ele talvez tivesse realmente abandonado ela, coisa que ela não acreditava, pois conhecia bem Joca e ele, elegante que era, com certeza se fosse embora, iria explicar o motivo, iria se despedir, iria organizar as coisas para que nada faltasse para ela. Então, a outra hipótese, era que algo tinha acontecido a ele, um acidente, um sequestro, qualquer coisa que estivesse impedindo de ele se comunicar com ela. Resolveu tomar uma atitude e passou o dia todo indo a delegacias e hospitais da cidade, até que foi informada que um homem com as características que ela descreveu tinha sido atendido pela manhã e estava em um dos hospitais da cidade. Rafaela pegou o endereço e foi para lá, seu coração sabia que ele não iria abandona-la, ela sabia que só poderia ser ele que estava neste hospital e quando ela se aproximou da recepção seu coração dava pulos de certeza.

No CTI, Joca já tinha recebido todo o atendimento, aquilo que a princípio pareciam sem fraturas em braços ou pernas se mostraram apenas batidas fortes com luxações, ele estava sedado e respira muito bem, todos os ferimentos iriam curar logo, o que preocupava Thais, que tinha passado as últimas 8 horas ao lado da cama era uma pancada na cabeça dele, que apesar de o ferimento externo não ser tão contundente, tinha se mostrado bastante preocupante na parte interna do cérebro, onde a tomografia mostrava alguns danos em que ela ainda não poderia precisar a extensão. Apesar de muito cansada, Thais achou maravilhosa aquelas horas cuidando daquele homem. Vária vezes, sem que outras enfermeiras percebessem, ela fingindo estar medindo o pulso dele, pegava na mão dele em suas mãos. Ela sabia que estava agindo errado, que estava agindo como uma adolescente, mas ao mesmo tempo seu coração inventava uma desculpa que carinho e palavras doces ajudavam na recuperação do paciente. Que mesmo sedados, eles podiam ouvir e apresentar melhoras, então começou a falar baixinho no ouvido dele coisas que seu coração ditava.

– Sabe moço bonito, logo, logo você vai estar melhor e se você quiser eu posso cuidar mais ainda de você. Eu sou muito sozinha, mas tenho muito amor e acho que este amor deve ser compartilhado…

Outras vezes fala coisas engraçadas.

– Você precisa conhecer o doutor Niki, ele é meu melhor amigo, ele te apelidou de Bruce, até nós descobrirmos o seu nome é assim que você vai se chamar, mas cuidado com o doutor Niki, ele adora homens bonitos…

E assim o plantão dela transcorria, cada vez mais apaixonada. Bruce reagindo cada vez melhor a medicação até que foi chamada na recepção.

Eram duas moças muito bonitas uma ficou sentada na recepção a outra veio falar com Thais. Camila, este era o nome dela, disse que estava procurando uma pessoa que ela achava que estava internada naquele hospital.

– O que você é dele? Desta pessoa.

– Sou muito amiga, eu posso vê-lo.

-Na verdade não sabemos se estamos falando da mesma pessoa, de qualquer forma você não poderá vê-lo. Ele está sedado e no CTI, amanhã, neste mesmo horário se ele estiver melhor iremos liberar as visitas. Você tem algum documento dele para sabermos se a pessoa que está no hospital é a mesma que você procura?

-Sim eu tenho todos os documentos dele. Ele deixou comigo, quando estávamos no carro.

Thais pegou os documentos, sim era ele, era Bruce, agora oficialmente João Carlos, Thais sentiu ciúmes e repetiu.

– Sim é ele mas como eu disse, de qualquer forma você não poderá vê-lo. Ele está sedado e no CTI, amanhã, neste mesmo horário se ele estiver melhor iremos liberar as visitas. Você terá que deixar os documentos dele para que possamos terminar de preencher o prontuário médico.

Camila voltou a recepção e barbara foi ao encontro da enfermeira, fez as mesmas perguntas, disse que era muito amiga de uma pessoa que estava internada naquele hospital. Mostrou as fotos e o coração de Thais disparou, era Bruce, João Carlos, sei lá, um sorriso lindo, fotos lindas, mas ela manteve a mesma expressão e falou de forma mais fria ainda.

– Sim, seu amigo está internado aqui, mas de qualquer forma você não poderá vê-lo. Ele está sedado e no CTI, amanhã, neste mesmo horário se ele estiver melhor iremos liberar as visitas.

Barbara e Camila voltaram para casa e Thais queria voltar correndo para o CTI “contar as novidades para Bruce” quando foi chamada na recepção. Eu e Sandy tínhamos chegado ao hospital e eu estava só esperando a recepcionista falar que não havia ninguém ali parecido com aquela foto que Sandy trazia, para dizer “ viu, eu te disse que era melhor nós procurarmos nos prédios, meu raciocínio não erra” quando chegou a enfermeira, muito bonita por sinal, diria até que sua beleza rivalizava com a beleza de Sandy e foi Sandy que falou que estávamos procurando alguém que talvez estivesse internado naquele hospital e mostrou as fotos. Posso estar enganado, mas tive a impressão que expressão da enfermeira mudou, um misto de surpresa e raiva tomou conta daquele rosto que mesmo com as mudanças de humor continuavam lindos.

– Você poderia me dizer o que você é dele?

– Sim, ele é uma pessoa muito especial para mim, é alguém que eu procuro há muito tempo.

A enfermeira se irritou.

– Eu pergunto é se você é parente, namorada, qual sua relação.

Sandy olhou para mim pedindo ajuda, era hora de eu mentir. E o mestre dos disfarces e das histórias bem elaboradas iria entrar em ação. Sandy precisava de ajuda e sorte dela eu estar ali.

– Ele é muito amigo meu.

– Sim, e qual o nome dele?

Eu, eu não sabia, minha mentira tinha durado dois segundos. Fiquei furioso, ia começar um escândalo, que é isto que eu faço quando não sei o que fazer, quando a enfermeira falou.

– De qualquer forma vocês não poderão vê-lo. Ele está sedado e no CTI, amanhã, neste mesmo horário se ele estiver melhor iremos liberar as visitas.

Saímos abraçados, Sandy estava feliz, e eu mais feliz ainda pois graças ao meu raciocínio estávamos no caminho certo. Amanhã tudo estará resolvido eu tenho certeza.

Ao sairmos passei por uma moça muito bonita, como tem moça bonita por aqui eu pensei.

Aquela moça era Rafaela, ela estava indo para a recepção. Boa sorte moça pensei que você encontre quem você está procurando assim como nós encontramos.

Thais não tinha voltado ao CTI ainda, quando viu Rafaela chegando. Seu coração sabia que era para Bruce e ela desejou que Niki estivesse ali, ele saberia colocar o seu coração em ordem, pois ela que sempre fora tão organizada, agora estava agindo ora como adolescente, ora agia como uma pessoa má, na verdade ela estava confusa e precisa conversar com Niki. Thais foi atender Rafaela, que contou que o marido havia saído de casa e não havia voltado e que poderia ter sofrido um acidente e poderia estar naquele hospital.

– com certeza. Ironizou Thais. – Qual é o nome dele.?

Quando Rafaela falou o nome, o coração de Thais endureceu e ela falou de forma fria.

– Novidade. Seu marido está aqui sim, ele está bem, mas de qualquer forma você não poderá vê-lo. Ele está sedado e no CTI, amanhã, neste mesmo horário se ele estiver melhor iremos liberar as visitas.

Quatro mulheres lindas voltavam para casa aliviadas e uma outra, exausta por estar trabalhando há mais de 16 horas, atravessava os corredores do hospital em direção ao CTI para contar as “novidades” para seu paciente.

 

 

 

Parte II Capítulo 3

Joca acorda.

Thais dormiu no hospital mesmo e de manhã trocou seu uniforme e começou um novo turno. Lavou bem os olhos pois ela mesma suspeitava que estava deixando transparecer cansaço e quando seu amigo o doutor Nick chegasse iria notar logo de cara seu estado físico e emocional.

O paciente tinha reagido muito bem a todas as medicações e seu quadro clinico havia apresentado uma incrível melhora. Durante o dia, a cada minuto que passava, ele ia saindo do coma gradativamente e toda a medicação foi reduzida, no meio da tarde ele acordou e Thais estava ao lado dele.

Thais sorriu e ajeitou o travesseiro, Joca sorriu agradecendo. Thais imaginou que ele iria fazer um milhão de perguntas e ela não sabia como iria explicar as 4 mulheres que haviam estado a procura dele na recepção na noite anterior e que certamente iriam voltar hoje. Todas elas demostrando uma carência afetiva, querendo depositar naquele homem a esperança de um futuro feliz e ela, se incluído também, na mesma situação. Joca não falou nada, seu olhar estava perdido e Thais achou que a primeira informação que ele deveria receber era de que sua esposa viria visita-lo, depois, como o tempo ele falaria das outras mulheres, mas a surpresa de Thais foi grande quando Joca disse que simplesmente não lembrava de sua esposa.

O diagnóstico foi rápido, amnesia profunda. Joca não lembrava do acidente. Não lembrava o nome, não lembrava como foi parar ali, não lembrava de nada.

Thais achou que o melhor seria ir dando as informações aos poucos, falou um pouco sobre a esposa, falou um pouco sobre as outras duas moças que vieram juntas e sobre uma terceira, um pouco aérea, mas muito bonita. Enquanto falava sobre cada uma, Thais observava com atenção o rosto de Joca, para ver se ele reagia com mais intensidade ou com menos emoção a cada nome, a cada fato novo contado, mas nada. Todos os nomes soavam estranho para ele, enquanto Thais falava, ajeitava o cabelo dele, as vezes pegava na mão dele, as vezes riam esquecendo que estavam no hospital e o dia foi passando assim. Joca melhorando a cada minuto, mas sua memória totalmente apagada em relação ao passado e Thais sendo cada vez mais atenciosa e se apaixonando cada vez mais por aquele estranho. No final da tarde, o coração de Thais deu um salto mortal para trás e ela perdeu o chão quando em uma brincadeira inocente em que ela perguntava a Joca se ele estava ansioso por conhecer aquela mulheres que iriam vir visita-lo e ele respondeu com a voz tremula de um menino assustado.

– Não lembro de nenhuma delas, não há emoção ou expectativa em conhece-las, para mim é como se elas não existissem. Para mim a única mulher que eu conheço, que está viva em minha mente é você, que cuidou de mim estas horas todas e que passei momentos muitos felizes até agora. Para ser franco, não gostaria de encontrar nenhuma delas neste momento, preciso de tempo para pensar, para tentar organizar meus sentimentos, acho que falar com elas agora será pior para mim e para elas, principalmente minha esposa, ou as outras que nem sei se eu nutria algum sentimento. Não quero me precipitar ….

Ele continuou falando, mas Thais já não estava mais ali, sua mente entrou em turbilhão quando ele disse que a única mulher era ela e isto era verdade. Ele estava com amnesia, as outras talvez fossem de um passado, remoto ou recente, não importava, mas somente ela era o presente.

18 horas na recepção. Hoje havia mais mulheres do que ontem, pois desta vez Taj fez questão de vir, portanto além de mim, Sandy e Taj, tinham vindo as amigas barbara e Camila e a esposa. Enquanto aguardávamos o médico plantonista ficamos trocando ideias e nos conhecendo um pouco melhor, mas a única que realmente se abriu e que contou verdadeiramente sua relação com aquele paciente havia sido a esposa. Seu nome era Rafaela. Contou da pequena discussão e que o marido havia saído de casa, mas somente um acidente para ele não ter retornado, mas que agora estava tudo resolvido. As demais moças não quiseram se expor tanto e mais esconderam suas reações do que contaram sua relação com o paciente. Barbara, a florista, disse que ele era cliente da floricultura, que havia deixado cair umas fotos e que ela queria devolver. Camila disse que ele havia perdido as chaves do carro e que ela queria devolver, e Sandy, ficou retraído, como dizer que flores que caíram do céu tinham sido enviadas por aquele homem para ela que sempre sonhou e esperou por ele. Realmente Sandy foi inteligente em ficar quieta e ouvir a estória das demais. Estávamos todos conversando quando apareceu na recepção do hospital um médico, muito bem-apessoado, todas as mulheres olharam para ele com interesse, ele era muito bonito, mas assim que chegou no meio daquele grupo, todos perceberam pelo seu jeito afeminado que seria mais fácil aquele médico também se apaixonar pelo paciente do que por qualquer uma delas ali da recepção.

– Bom, meninas, tenho ótimas notícias, o paciente João Carlos, teve uma melhora significativa, está completamente reestabelecido e todos os seus ferimentos irão ter uma cura rápida e sem sequela.

Todos ali ficaram felizes, sorriram aliviados, enquanto o doutor continuou com seu tom monocórdico, como se estivesse apenas lendo um comunicado.

– Sua recuperação foi tão rápida que hoje mesmo ele recebeu alta e a pedido do próprio paciente, já foi removido deste hospital para dar continuidade ao tratamento em outro local. Muito obrigado,

Tendo dito isto o médico virou as costas rapidamente e tentou sair da recepção, mas todas as mulheres ali o cercaram, houve um grande murmuro, conversas ao mesmo tempo, até a recepcionista demonstrou surpresa, apenas eu e Taj permanecemos imóveis, observando aquele redemoinho de perguntas, mãos tentando segurar o médico, exigindo explicações. Quanto mais as meninas cercavam o Doutor Nick, mais ele se mostrava afeminado e em pouco tempo eu já não conseguia distinguir, quem era esposa, quem era médico, que era amiga e quem era curioso naquela recepção.

Neste mesmo momento Thais preparava uma canja de galinha para seu paciente em seu apartamento.

FIM

 

 

 

 

 

Capítulo 7

A cunhada.

Um personagem muito, mas muito intrigante.

 

 

 

 

 

Capítulo 8

Cláudio, o detetive.

Ele veio para solucionar tudo.

Capítulo 9

Investigando.

Capítulo 10

Acaba tudo.

Fim.

 

Fim

 

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