E-book 3 Zona Eleitoral.

Zona Eleitoral.

Capitulo 1

Prefeito Sarapião Rufus.

Começa a “história”

PEDROSO artA cidade estava um Caos. O fornecimento de combustível estava racionado porque a estrada para chegar a pequena Açoilandópolis estava intransitável e levava semanas para chegar qualquer tipo de mercadoria para o comércio local.

 

Atenção: Esta é uma obra de ficção, os nomes e as imagens são meramente ilustrativa e não tem nenhuma relação com pessoas ou acontecimentos da vida real.

 

Na saúde também reinava o caos. O pequeno posto de saúde há muito tempo não tinha médico pois o salário oferecido pela prefeitura não atraia nem mesmo os médicos recém-formados. Para alguém vir querer trabalhar ali, só por um decreto federal. Todos os outros índices para se calcular as condições de vida dos habitantes daquela cidade também eram muito ruins. Tudo isto eu fiquei sabendo pesquisando na internet depois que recebemos em nosso escritório uma figura muito curiosa: Seu nome era Sarapião Rufus, prefeito eleito para o segundo mandato da nossa querida Açoilandópolis, uma cidadezinha pequena, no interior do estado, mas que curiosamente recebia uma verba proporcionalmente muito alta do governo federal e também royalties de uma indústria de extração de minério.

O prefeito nos contou que a cidade estava assim pois todos os que deviam ajuda-lo na administração estavam tramando contra ele e que ele tinha certeza que tudo aquilo era um plano para tira-lo do poder, já que a sua família governava aquela região desde o tempo de seu avô.

A experiência nos diz para não acreditar em tudo que um político fala pois quando é para entrar no poder o discurso é de renovação e quando é para ficar o discurso é de “continuidade”.

Eu e Taj fizemos a honra ao receber aquela pitoresca criatura e Taj perguntou em que podíamos ajudar.

– Vocês poderiam visitar a cidade, dizer que estavam fazendo uma matéria sobre a indústria de extração de minérios ou mesmo sobre a cidade e seus habitantes, depois entrevistar alguns vereadores, pois tenho a certeza que algum deles ou alguns devem estar tramando contra mim e contra os interesses da sociedade açoilandesopolitana.

É claro que iríamos aceitar aquele convite, mas cada um de nós aceitaria por um motivo diferente. Taj iria aceitar porque realmente está sempre querendo ajudar e nunca disse não a qualquer pessoa que viesse pedir ajuda a ela. Eu iria aceitar pois seria uma excelente oportunidade de mostrar minhas habilidades dedutivas, meu raciocínio rápido e minha capacidade de resolver todo e qualquer problema, sejam eles grandes ou pequenos, simples ou complicados, a proposito eram os complicados que eu mais me interessava. Sandy certamente aceitaria, pois, o próprio prefeito já havia acenado com uma verba para publicidade na revista, além de indicar várias outras indústrias da cidade, que com certeza gostariam de ver seus nomes e seus produtos vinculados a uma publicação que só tem pautas positivas. Isto seria um reforço para o nosso caixa e para projetos que Sandy queria implementar ainda este ano. Tedo iria aceitar, pois viajar, conhecer pessoas novas e novas situações era bem o seu perfil e finalmente Zé da Baga iria aceitar pois sempre que todos nós aceitávamos alguma coisa ele sempre dizia “tô dentro, conte comigo, é para que mesmo? ”

Estava tudo certo. Iriamos arrumar nossas coisas e no outro dia bem cedo iriamos com o prefeito conhecer a cidade e seus personagens. Sandy ficaria para controlar o escritório em nossa ausência. Eu e Taj iriamos no carro junto com o prefeito e Tedo e zé da baga iriam no carro da Revista para que pudéssemos ter um veículo na cidade e assim nos sem precisar usar um carro que nos vincule a prefeitura e ao prefeito. Na viagem Sarapião já iria nos contar um pouco sobre as principais pessoas envolvidas e então iriamos descobrir se alguém realmente estava contra o nosso novo amigo ou se era mais uma estória de político com segundas intenções querendo nos usar para seus propósitos de se perpetuar mais ainda no poder.

Seis horas da manhã. Estávamos na frente do escritório da Revista conforme combinado. Tedo e Zé da baga estavam dando uma olhada no motor do carro enquanto Taj conferia sua inseparável mochila de apetrechos com máquina fotográfica, pen drives, note books, celulares (sim dois celulares) e muita, muita tecnologia. Eu estava com minha mochila básica de 3 cuecas, 3 pares de meias, 3 calças e 3 camisetas e nenhuma tecnologia. O que eu precisava era somente de meu cérebro e as informações que eu iria coletando ao longo da jornada.

– o que você achou do prefeito? Taj me perguntou.

– Não achei nada ainda. Conversamos muito pouco, não tenho informações suficientes. E você, o que você achou do prefeito? Perguntei para Taj devolvendo a mesma pergunta, depois me arrependi, pois, imaginei que ao fazer a mesma pergunta ela poderia me dar a mesma resposta. Taj sorriu e respondeu.

– Eu acho que ele pode estar falando a verdade e neste caso veio pedir para que possamos ajuda-lo e iremos fazer isto com o maior prazer, virgula, mas ele pode estar mentindo e neste caso acho que quem precisa de ajuda são os outros envolvidos nesta estória e neste caso também teremos o maior prazer em ajuda-los. O mais importante é que independente de alguém estar querendo ajudar ou atrapalhar o prefeito, esta cidade recebe uma quantia generosa de recursos, mas a população não desfruta dos benefícios destes recursos, muito pelo contrário, sofre com a falta, com a má administração e talvez até desvios, por isto não importa quem está certo ou quem está errado, estamos indo para ajudar a população.

Neste momento o carro do prefeito chegou, Taj encarou ele com o olhar firme, o prefeito não entendeu aquela encarada forte. Minha vontade era de dizer “É meu amigo, você pediu ajuda para uma pessoa que poderá ser uma forte aliada sua, mas também pode ser uma verdadeira oponente, portanto ande na linha”, mas não disse nada. Apenas cumprimentei de forma cordial e senti no semblante do prefeito um certo alívio, pois meu cumprimento era mais de parceira do que de qualquer outro sentimento.

No carro o prefeito sentou no banco da frente ao lado de seu motorista particular e virou para trás para conversar comigo e Taj enquanto a poucos metros Tedo e Zé da baga nos seguiam com o carro da empresa.

– Fale um pouco sobre aqueles que você acha que estão querendo atrapalhar sua gestão senhor Rufus. Perguntou Taj assim que o carro começou a se movimentar.

– Acredito que meus oponentes estão entre aqueles que receberam, assim como eu, os votos de confiança da população, ou seja os nobres vereadores de nossa cidade e começou a falar de um por um. Eram sete vereadores, cada um deles representava uma parcela diferente da sociedade e tinha suas características e seus posicionamentos bem definidos. Havia um pastor que representava uma igreja envagélico-neo-pentecostal da gloria de Deus. Havia um radical que era contra tudo e contra todos não importava o que, ele era contra. Tinha também um político que há muito tempo estava no poder, passava anos, mandados, eleições e seu partido sempre estava coligado, apoiando ou apoiado, fazendo parte de qualquer situação ou sendo oposição quando ser oposição era a melhor situação, se é que você me entende. Tinha um que era uma raridade, seu nome era Honestino e seu nome já dizia tudo, em anos de política naquela cidade, nunca foi encontrado nada em seu nome que não fosse lícito, nunca esteve envolvido em nenhum escândalo, em nenhum caso de corrupção, Honestino não só parecia honesto como realmente era honesto. Havia um coronel que devia ser a copia de Sarapião, aquele coronel das antigas, que dominava a cidade com mãos de ferro e não à toa era o presidente da câmara e maior rival do atual prefeito. Havia dona cotinha. Uma senhora que se elegeu com os votos da terceira idade e com os votos dos clubes de mães que naquela cidade se multiplicaram de forma absurda igual as igrejas pento-neo-envangélicas. Para finalizar havia um rapaz que quando o prefeito falou o nome eu não acreditei, mal sabia o prefeito ao falar dele que nós já o conhecia e o prefeito disse que era um almofadinha que tinha vindo da cidade para morar no interior e começou um movimento gay na cidade e acabou recebendo uma quantidade grande de votos, que o prefeito disse que eram votos de protestos depois perguntou se gay não eram esses homes que se vestem de mulher.

Como vimos a empreitada que iriamos assumir se mostrava bastante promissora. E para que nossa viagem fosse produtiva pedi ao prefeito.

– Me fale um pouco mais sobre este vereador que é pastor, por favor.

 

Capítulo 2

Pastor Amparildo.

Aquele que veio para dar amparo.

Sarapião Rufus pigarreou, ajeitou-se no banco e deu uma olhada de soslaio para o motorista. Aquele olhar queria dizer que: o que ele ia falar não deveria ser dito para ninguém? Ou significava: mesmo que eu fale mentira você fique quieto. Não sei dizer direito, mas eu iria descobrir.

– Amparildo era bêbado e vivia nos cabarés da cidade, um dia foi preso por desordem e ficou algumas semanas na cadeia, lá teve contato com uns presos recém convertidos e também se converteu. Todos ficaram admirados com a rapidez com que ele aceitou todos os ensinamentos da igreja e em poucas semanas depois de batizado já estava ajudando a batizar. Como não tinha residência fixa foi ficando na igreja e logo, logo começou a pregar. Primeiro pregou umas ripas que estavam soltas na cerca da parte de trás da igreja, depois começou a pregar os bancos da congregação que rangiam durante os cultos e atrapalhavam o pastor principal, depois começou a pregar umas mentiras dizendo que também era pastor e por fim pregou uma peça em uma boa parte da cidade quando se candidatou a vereador e a igreja que ele frequentava declarou apoiou a sua candidatura, todos os integrantes votaram nele e ele fez uma votação bem expressiva. Como na época da eleição ele usava a denominação “ pastor Amparildo” “ aquele que veio para amparar acabou ficando como uma marca própria e ele acabou virando “pastor” a assim pode pregar cada vez mais, agora tanto na igreja quanto na câmara.

Não havia rancor no relato de Sarapião Rufus, não havia simpatia. O prefeito simplesmente narrava os fatos sem demonstrar sentimentos, o que tornava as coisas mais difícil para mim, pois se iríamos tentar descobrir quem estava contra o prefeito, a narrativa não ajudava muito, apesar de eu saber que ainda era muito cedo para tirar conclusões. O prefeito olhou novamente para o motorista, como a pedir autorização para o que ia contar e falou em um tom de voz um pouco mais baixo.

– Ele enriqueceu muito rápido, não sabemos se desvia dinheiro da câmara ou da igreja.

– Ou dos dois. Finalmente o motorista falou e Sarapião o fuzilou com o olhar.

– Ou de nenhum lugar, talvez não desvie, talvez enriqueceu de outra forma. Falou Taj que sempre via coisas positivas e atitudes honesta em tudo e em todos.

– Mas que enriqueceu, enriqueceu, se foi honestamente ou não é isso que iremos descobrir. Eu falei e o prefeito ficou sério.

– Não concordo, nem discordo do seu comentário, mas muito pelo contrário.  Falou o prefeito que na realidade não disse nada.

– E este radical? Fale sobre ele. Pediu Taj.

O prefeito mudou totalmente, tornou-se irritadiço e sua voz mudou para um tom agressivo.

-Este eu não gosto nem de falar o nome, mas vou falar……

 

Capítulo 3

Pedro Pedra pedreira.

Mais Radical impossível.

O prefeito já começou bufando. Sua voz tinha se alterado, seus modos também e esta mudança era genuína, não estava fazendo tipo, ele realmente estava alterado e falou:

– Todo mundo chama ele de PP3, um dia ficou desempregado na mina que trabalhava e foi no escritório da companhia reclamar, como gostava de chamar a atenção e como aquele dia era dia de pagamento, havia muita gente próximo ao escritório da mineradora e ele começou falando alto, que a companhia tratava eles como lixo, que trabalhador não era minério que podia ser tirado de seu lar, triturado, usado e jogado fora, etc, etc. aquelas palavras eram como gasolina em um incêndio muita gente começou a ficar entusiasmada com o discurso dele. Na época o sindicato era quase inexistente na cidade e muitos pensavam que ele pertencia ao sindicato, como ele estava desempregado mesmo, começou a frequentar as reuniões e a agitar comícios e encontros para divulgar a causa do trabalhador. Alguns riam dele, pois ele nunca foi de muita credibilidade, mas outros começaram a se sentir representado e também a propagar seus discursos, cheio de referências ás vezes bíblicas como na ocasião que falou que sua palavra era uma semente que precisava de solo fértil par germinar, e o povo, sem perceber reconhecia aquelas palavras, gostava e o apoiava. Como ele percebeu que a maioria de seus seguidores era semianalfabeto e a maioria de suas referências o povo não entendia mas propagava, começou a fazer citações sem sentido mas em seus lábios, ditos com uma teatralidade exagerada, tinha um efeito devastador. Quer um exemplo? O prefeito nos perguntou, mas antes que pudéssemos responder ele já estava imitando PP3.

– Não deixe o Governo ser um fogão na sua vida. Sim, um fogão na sua vida.

Realmente, tive que concordar com o prefeito, a frase não fazia sentido nenhum, mas pronunciada daquela maneira, parecia uma palavra de ordem. Se o prefeito falasse mais umas duas ou três vezes eu iria sair do carro gritando “não vai ser fogão na minha vida., não vai ser fogão, na minha vida não”.

– Normalmente este tipo de pessoa é inofensivo. Falou Taj e o prefeito mudou o semblante. Depois tentou parecer irritado novamente, mas não conseguiu e falou:

– Uma vez ele jogou gasolina no corpo e ameaçou se queimar inteiro se a companhia não atendesse as suas (dos trabalhadores) reinvidicações.

– Mas ele não se queimou, queimou? Perguntei.

– Na verdade não e se bem me lembrou, enquanto estava com o corpo coberto de gasolina, seu olhar demonstrava muita preocupação com qualquer sinal de fogo que pudesse aparecer por perto, mas ele conseguiu o que queria, a mídia cobriu este ato, ele se tornou símbolo da luta dos trabalhadores e na primeira eleição que teve ele criou mais bordões sem sentido que inflamavam a população e assim se elegeu.

– E hoje, o que ele faz. Taj perguntou.

– Faz oposição. Disse o prefeito novamente irritado. Ele é contra tudo mesmo aquilo que possa ser bom para o trabalhador e ainda diz “ se eles estão nos oferecendo, meu amigo, pode acreditar, é pedra pra mastigar”.

Comecei a rir. Ia ser interessante encontrar Pedro Pedra Pedreira. Vou bolar uns bordões engraçados para confrontar com os deles.

– Tome cuidado. Disse Taj olhando para mim. – Não se brinca com a simplicidade do ser humano enquanto indivíduo e nem com a força de suas reações enquanto massa.

Pronto. Taj cortou meu barato, mas ela estava certa, estávamos indo para uma cidade em que não conhecíamos ninguém e onde o perigo pode estar em qualquer lado da trincheira.

 

Capítulo 4

Pôncio Perpétuo.

Perpetuando no poder.

 

Resolvemos parar para um lanche. Acredito que Taj queria continuar a conversa, mas ao mesmo tempo queria que Tédo e Zé da baga participassem um pouco, para que quando chegássemos na cidade eles não estivessem tão por fora do assunto “amigos do prefeito”. A intenção foi boa, em relação ao Tédo que se juntou a nós e fomos para uma mesa da lanchonete e logo ele já estava a par de tudo um pouco que o prefeito havia nos falado. Em relação ao Zé da Baga foi uma perda de tempo, pois assim que entramos na lanchonete ele viu uma prateleira com antigos discos e começou a falar e gesticular e nos abandonar tudo ao mesmo tempo agora dizendo “capa de disco” Bóóóóh (que é um bah com óóó) “parece capa de disco” e apontava tudo em volta e repetia “ parece capa de disco”. O prefeito não entendeu e também ninguém fez menção de explicar.

– Você ia começar a falar de Pôncio Perpétuo. Taj disse para o prefeito e olhou para nós, pedindo nossa atenção com aquele olhar que eu achava lindo e que todo mundo dizia que era normal.

– Ah, sim.

Começou o prefeito.

– Ele está na câmara desde que Açoilandópolis se elevou a município, ou seja, desde a primeira legislatura. Acredito que ele já era vereador no município de onde nossa cidadezinha desmembrou. Acho que seu nome completo é Pôncio do perpétuo poder.

Comecei a rir, mas o prefeito me olhou com uma cara séria. Ele não estava brincando, o nome do homem era o que ele realmente era. Ele estava enraizado no poder desde os primórdios daquela região. Para não ficar com cara de Tacho emendei outra brincadeira.

– Outro PP3.

Ninguém entendeu, mas, pelo menos, não ficaram bravos.

– Como ele conseguiu e consegue se eleger para ficar tanto tempo assim no poder?

Perguntou Tédo, que começa a se interessar pelo assunto, enquanto o Zé da Baga passava por trás de nós com as mãos em forma de máquina fotográfica e dizia “ bóóóó´, parece capa de disco.”. O prefeito começou a responder para o Tédo, mas seguia o zé com olhar, meio que curioso pelo que estava acontecendo, meio receoso com o que poderia acontecer. Taj falou suavemente.

– Não se preocupe com ele, ele é inofensivo.

– Bem, Pôncio sempre foi de um partido que se coligava com quem estava na frente, sempre apoiou quem tinha mais chance, sempre foi da base do governo na câmara, não importando qual fosse o governo e mesmo quando fazia uma votação baixa, acabava entrando como suplente, pois outro vereador assumia cargos de secretários, ás vezes até por indicação dele, ou seja com voto ou sem voto, por um partido ou por outro, ele estava sempre na câmara e na maioria das vezes em cargos importantes, já foi presidente várias vezes. Olha se ele não se eleger tenho certeza que é chamado para ser secretário de alguma coisa.

-Você chamaria? Perguntei a queima roupa para o prefeito que preferiu não responder ficou olhando, com um olhar misto de curiosidade e preocupação para o Zé que passava perto de nós. Taj falou para o Zé em tom ríspido:

– Zé, senta aqui. Você precisa ouvir sobre as pessoas que vamos encontrar para saber como agir.

Gostei do jeito como Taj falou. Enérgica, ríspida. Zé iria tomar jeito ou tenho certeza que Taj tomaria alguma atitude, mas o zé não mudou uma linha de seu semblante, minto, mudou sim, fez uma cara de espantado e disse.

– Saber sobre as pessoas da cidade? Eu sei tudo sobre estas pessoas. Sei sobre o Amparildo que era bêbado e hoje é pastor e rico. Sei sobre o PP3 radical, que nunca trabalhou pesado mas representa os trabalhadores pois sabe o que tem que falar aquilo que eles querem ouvir. Sei também desde PP3 do perpetuo poder que nunca sai da cena política da região. Sei até um pouco sobre você SR Prefeito.

O prefeito ficou abismado e eu também. Como Zé sabia daquilo tudo, se ele tinha vindo no outro carro e aqui na lanchonete ainda não tínhamos trocado uma palavra a respeito disso com ele. Fiquei curioso, isto eu queria saber. Taj perguntou.

– Zé nós queremos saber como você sabe disso tudo?

– Primeiro que eu tenho um amigo em sua cidade sr. Prefeito que me conta tudo e segundo porque o Tedo colocou uma escuta no carro de vocês e eu e ele viemos escutando tudo.

Todos olhamos para Tedo. Em seu rosto podíamos perceber que aquela parte da escuta, do microfone, não era para o Zé da Baga ter falado.

 

Capítulo 5

Honestildo.

O nome já diz tudo.

 

Taj como sempre, contornou a situação. Disse que entre nós não havia segredos e que o era bom que o Tedo e o Zé soubessem mesmo de tudo que conversávamos e melhor ainda, que o prefeito soubesse que havia uma escuta no carro e que todos estavam compartilhando a mesma informação. O tiro de Taj foi certeiro, todos concordaram e ela continuou:

– Bom já que estamos todos aqui reunidos Sr, prefeito, nos fale um pouco mais sobre este outro vereador, que parece ser um espécime rara, como é o nome dele mesmo? Honestildo.

– Sim, este nome mesmo e o homem é realmente honesto. Pai de família, dedicado, religioso, cumpridor de seus deveres, nunca foi encontrado um só ato que atentasse contra sua honestidade. Ele se elegeu com facilidade quando começou a utilizar a seguinte frase “ você quer um político honesto? Vote em mim”. Desafiou a todos da cidade a, se encontrarem alguma coisa que o desabonasse, que falassem e não votassem nele. Como nada foi encontrado, nem um “ai” contra ele, elegeu-se com muita facilidade. Muitos da cidade dizem que ele usa esta “áurea” de honestidade para fazer falcatruas, mas como até hoje nunca ninguém provou nada contra ele, sua fama foi crescendo e se fortalecendo cada vez mais.

– Pode ser que ele seja honesto mesmo. Tedo comentou.

– Sim, mas pode ser que ele seja honesto para criar esta fama e agora que ninguém desconfia dele, pode fazer coisas erradas e ser encoberto pela fama. Comentou o prefeito.

– Se tem alguém fazendo alguma coisa errada em seu município, nós vamos descobrir Sr. Prefeito. Seja quem for. Disse Taj e o prefeito ficou meio contrariado.

Neste momento chegou o motorista do prefeito que tinha estado afastado este tempo todo e Taj perguntou a queima roupa.

– O que você acha de Honestildo?

O motorista olhou para o prefeito procurando auxilio, o prefeito olhou de volta com um olhar neutro e o motorista respondeu.

– O próprio nome já diz. Nunca ninguém encontrou nada dele. Você sabe, quando o povo diz que a vaca é malhada é porque alguma manchinha tem, se o povo nunca encontrou nada é porque não deve existir.

Taj sorriu. O prefeito sorriu. O motorista respirou aliviado e complementou:

– Vamos, ainda temos muito chão pela frente até chegar a nossa cidade.

– Vou lançar um desafio. Disse eu que não tinha dito nada ainda neste capítulo. – Quem encontrar alguma coisa que desabone Honestildo primeiro, ganha uma rodada de cerveja artesanal.

Zé da Baga deu um salto detrás das prateleiras, falando e se antecipando a qualquer um de nós.

– Honestildo uma pinóia, se este homem faz alguma coisa errada eu vou descobrir. Se ele errar uma palavra do “Pai Nosso” eu vou saber. Alguma coisa de errado este homem faz. A cerveja artesanal é minha, ou eu não me chamo Zé da Baga. Honestildo uma pinóia.

Capítulo 6

Coronel Betão.

Inimigo n° 1 de Sarapião.

 

Gostei da determinação do Zé da Baga, ás vezes ele trocava os pés pelas mãos, mas aquela determinação com certeza iria nos ajudar. Terminado o lanche era hora de voltar para estrada, depois de estarmos todos acomodados, Taj testou o microfone para ver se Tedo e Zé estavam escutando bem e também para lembrar para o prefeito e para o motorista que eles estavam sendo ouvidos e até gravados. Feito o teste Taj foi direto ao assunto:

– E esse tal de Coronel Betão?

O motorista remexeu no banco e olhou para o retrovisor interno, Sarapião franziu o rosto e falou em tom ríspido.

– Este é meu inimigo declarado. Inclusive durante a sua campanha usava este slogan “ Coronel Betão o inimigo número 1 de Sarapião”

Comecei a rir, rimava, mas Sarapião não estava rindo e falou mais contrariado ainda:

– Ele tem raiva de mim porque me admira. Ele gostaria de ser o prefeito da cidade, como nunca consigo me vencer em uma eleição fica fazendo oposição ferrenha.

– Em outras palavras, ele se elegeu vereador com os votos daqueles que não gostam do senhor? Eu perguntei por pura sacanagem. Sarapião me fuzilou com os olhos mas concordou com a cabeça

– Não se pode agradar a todos.

– Mas pode-se desagradar muitos. Insisti.

– Um inimigo a mais, um inimigo a menos não faz diferença. Taj falou em tom de brincadeira tentando quebrar o clima que estava começando a ficar pesado, mas Rufus respondeu por entre os dentes:

– Eu vou preferir quando ele for um inimigo a menos.

O resto da viagem transcorreu sem maiores problemas. Sarapião contou mais alguns detalhes sobre os vereadores que tínhamos conversado até aquele momento e chegou uma hora que o cansaço foi batendo, sabe aquela preguiça depois de um lanche, o assunto foi variando sobre a população em geral, sobre a cidade em si, sobre outros carnavais, outros campeonatos, outras corridas, até que cochilei de boca aberta. Acho que em respeito ao meu sono todos pararam de falar e ficaram absortos em seus pensamentos. Cada um remoendo suas teorias, lembranças e esperanças.

Quando estávamos chegando na cidade, já estava começando a anoitecer, Taj tentou retomar o assunto:

– E dona cotinha? A única mulher da câmara?

– Esta será a primeira que vocês irão conversar, pois ela também é dona da única pensão da cidade e é onde vocês irão dormir durante sua estadia aqui.

 

Capítulo 7

Dona Cotinha.

Velhinha marvadinha.

Chegamos na pensão. O prefeito não quis nem descer do carro, apontou para a pensão e disse que queria conversar conosco no outro dia na prefeitura. Enquanto eu e Taj nos despedíamos dele, Tedo e Zé da Baga olhavam para o enorme casarão que seria nossa morada pelos próximos dias. Entramos, no hall de entrada encontramos uma senhora com cara de vovozinha: Dona Cotinha. Taj se apresentou e começou a falar um pouco de cada um de nós, mas a velha foi logo cortando e dizendo “ eu sei, eu sei” com uma cara de impaciência.  Taj desistiu e para quebrar o silêncio e também para dar uma atiçada na velha eu falei:

– Nós somos convidados do prefeito Sarapião.

– Eu sei, eu sei. Continuou a velha a resmungar, mas agora não mais demonstrava impaciência. Seus olhos nos fitava por cima dos óculos e apertava o olhar toda vez que mirava cada um de nós e depois, tentando ser casual, perguntou:

– E convidou vocês para que?

Achei melhor ficar quieto, com certeza Taj iria responder e dar um nó na velha, dizendo que era para conhecer a cidade, dizer que era uma matéria para revista, sobre empreendedorismo etecetera e tal. Taj sabia muito bem esconder o jogo, mas para minha surpresa (não tão surpresa assim) foi Zé da Baga que falou:

– Ele acha que que algumas pessoas na câmara estão tramando contra ele e pediu para que nós descobríssemos quem são e o porquê.

Beleza Zé!! Se era para guardar algum segredo, este segredo ficaria bem guardado com esta velha fofoqueira. Tenho certeza que Taj ia se irritar, não é do feitio dela contar as coisas assim tão abertamente como o Zé contou e ele iria sentir a fúria dela…

– Isso mesmo que meu parceiro falou, viemos ajudar o prefeito caso alguém esteja tramando contra ele. Você acha que alguém pode estar fazendo isso? Perguntou Taj calmamente.

Dona cotinha demorou um pouco a responder. Olhava para o Zé da Baga, depois olhou para mim. Aquela velha com certeza ia aproveitar a ocasião para envenenar nossa mente, ela iria citar pelo menos uns três, quatro que estariam tramando contra o prefeito, eu já estava me preparando para filtrar o que ela ia falar, para não ser envenenado por ela.

– Não, meus filhos, aqui nesta cidade ninguém trama contra ninguém, eu acho que isto é mais fruto da imaginação do prefeito, que acreditem, tem mania de perseguição, do que uma ameaça real de qualquer um dos vereadores. Aqui na cidade, cada um a seu modo, só quer o bem da população. O prefeito é que enxerga chifres em cabeça de cavalo.

Para cima de mim velhota!! Eu nunca iria cair nessa e Taj com certeza também não. Que o prefeito não era lá muito certo, não era mesmo, mas dizer que todo mundo é um anjo e que ninguém quer o mal de ninguém é abusar da nossa ingenuidade. Taj sorriu aliviada e disse:

– Que bom.

Zé da Baga tinha feito o estrago e saído para a antessala da pensão junto com o Tedo. Taj começou a preencher os papéis de nossa estadia e eu aproveitei para dar uma encarada na velha para mostrar que ela podia enganar todo mundo menos eu e que eu seria um osso duro na sopa dela. Fiz minha pior cara de malvado (ou seria minha melhor pior cara de malvado) e fiquei encarando a velha. Ela ficou me olhando com um sorriso maternal (ou vovonal) uma candura, um rosto que trazia uma paz para quem fitava, me deu uma vontade de encostar a cabeça no ombro dela e pedir um abraço. Acho que eu estava sendo enfeitiçado. Esta velha tem poderes. Sustentei minha cara de mau contra aquele rosto angelical, meus dentes rangeram contra aquele sorriso calmo e ficamos assim por alguns segundos. Eu com a cara feia emburrada e cada vez emburrando mais, olhando para o rosto daquela senhora com aquele sorriso que dava vontade de pedir um abraço, quando Taj levantou a cabeça e perguntou espantada ao ver aquela cena.

– O que é isto? O que está acontecendo.

– Nada minha filha, a gente está só se conhecendo. Falou Dona Cotinha com uma voz doce a acalentadora.

 

Capítulo 8

Ele voltou

E tudo ficou mais alegre e colorido.

A velha terminou de fazer nossa registrou, o clima estava um pouco pesado, e ninguém falou mais nada. Fomos para nossos quartos. Cada um no seu. O do Tedo de frente para o do Zé da Baga e ao lado do meu. Por consequência Taj ficou de frente para mim e ao lado do Zé da Baga. Estava desfazendo a minha mochila quando ouvi um telefone tocar em algum quarto. Poucos segundos depois outro tocou e depois de mais alguns segundos mais um telefone tocando. Por último tocou o fone do meu quarto.

– Vocês têm visita. Disse a velha em tom emburrado e desligou antes que eu pudesse agradecer ou perguntar quem seria. Fiquei imaginando se ela tinha falado com os outros naquele tom brusco ou se era só comigo.

Abri a porta do quarto, Taj estava saindo naquele momento e Tedo e Zé já estavam quase no fim do corredor. Pensei em perguntar para Taj se ela sabia quem seria nossa visita, mas antes de eu falar, ela já foi logo dizendo.

– Não faço a mínima ideia de quem possa ser, pois ninguém está nos aguardando.

– No interior, as notícias correm rápido, com certeza a cidade inteira já sabe que estamos aqui. Vamos descer e descobrir logo de quem se trata.  Falei e apressei o passo, pois o Zé e o Tedo já tinham sumido no fim do corredor e, depois de alguns segundos, escutamos gritos efusivos, risos e uma comemoração descabida. Uma voz soou conhecida e a curiosidade aumentou. Ao chegarmos no saguão da pensão, Dona Cotinha olhava incrédula para a festa que Zé da Baga e Alannilsom fazia. Sim, Alannilsom estava ali, naquela cidade, naquela pensão em nossa frente, dançando, gesticulando, falando e abraçando tudo ao mesmo tempo agora. Aos poucos fomos entendendo o que estava acontecendo nas palavras (e gritinhos) do próprio Alannilsom:

– Liiiiiiiindos, vocês não sabem a alegriiiiiiiiiiiiiiia que é ver vocês aqui. Esta cidade é muito parada e eu sozinho não tô conseguindo agita-la  o suficiente. Espero que vocês me ajudem. Tú, tú, tú e tú.

Girava Alannilsom, apontando com os dedos para cada um de nós. Depois apontou para dona cotinha e riu alto.

– Túúúúúúúúúúúúú! Nããããããããããããããoooooooooo!!!!!!!!!

Dona cotinha ficou mais emburrada e enquanto Zé da Baga e Alannilsom (e agora Taj também) conversavam, irei tentar explicar o que estava acontecendo.

Alannilsom também era vereador daqui (e por isto também nosso suspeito KKKK) ele tinha vindo para cá bem na época da eleição. Recomendações médicas: Ir para uma cidade mais calma para que pudesse “desacelerar” um pouco o modo de vida. A cidade grande e o agito da cidade grande estava deixando ele cada vez mais agitado. E funcionou perfeitamente, Alannilsom estava mais calmo. Tão calmo que resolveu se candidatar a vereador para dar uma “agitadinha” na cidade e na própria vida. Bem, a verdade é que a cidade nunca tinha visto uma figura como aquela. Já que ele tinha vindo por ordens médicas o povo pensava que ele era biruta, depois começou a achar que era gay (o primeiro da cidade). E por fim todos achavam que ele era um gay biruta. Mas na verdade ele era só biruta.

– E a sua flor? Não veio com você. Perguntou Taj entre um surto e outro de alegria de Alannilsom.

– Não, Leticia vem me visitar quase todo mês. Ela nem acreditou quando eu disse que era candidato a vereador e acreditou menos ainda quando eu me elegi. Mas e vocês? O que vocês estão fazendo aqui? Vieram me veeeeeeeeeeer?

Quando o Zé da Baga ia abrir a boca Taj falou na frente.

– Siiiiiiiiiiiim.  Viemos visitar nosso amiiiiiiiiiiiiiiiiigo!!!!!

Alannilsom ia dar um pulo de felicidade, mas Dona Cotinha falou em tom sombrio.

– Eles foram convidados pelo prefeito Sarapião.

Alannilsom deu uma murchada. Em num tom não tão alegre como ele sempre se comunicava, (mais para si mesmo do que para nós), falou de uma forma que mal pude ouvir.

– O que aquele crápula quer com vocês aqui.

 

Capítulo 9

Começa a aventura

Encontro com todos.

 

Aqui as coisas seriam corridas, pois em nossa primeira noite e Taj já havia combinado no com o prefeito que iriamos participar da sessão da câmara para termos contato com os vereadores. O plano era o seguinte: Iriamos a sessão tentando não chamar a atenção e no final dos trabalhos o prefeito iria aparecer de surpresa e nos apresentar aos vereadores, dizendo que tínhamos sido contratados para fazermos uma matéria especial sobre a cidade e blá, blablá, blablá.

Primeira parte do plano ir a sessão sem chamar atenção foi por agua abaixo. Na reunião daquela noite só havia os vereadores, ninguém mais da cidade além de nós. Como 4 pessoas estranhas da cidade em uma reunião pela primeira vez não chamaria a atenção. Sem contar Alannilsom abanando para nós a todo momento, fazendo com que fossemos a atração daquela noite.

A sessão estava chegando ao fim, poucas discussões, poucos assuntos polêmicos e estava quase na hora do prefeito chegar. Nesse momento o barulho de um carro estacionando na frente da câmara, não me deixou dúvida, era o carro do prefeito, conheci o som do motor, Tedo olhou para mim e confirmou com a cabeça. Taj percebeu e começou a se preparar pois em breve o prefeito iria entrar na sala e nos apresentar e ela seria a responsável em conversar com os nobres Edis, caso algum fizesse alguma pergunta. Zé da Baga acenava para alannilsom, que acenava de volta para Zé da Baga e para todos nós.

O prefeito começou a demorar. O presidente da mesa estava encerrando a sessão. Taj olhou para mim, eu não tinha resposta, olhei para Tedo. Tedo olhou de volta para Taj. Zé da Baga acenou de novo para alannnilsom que acenou de volta para nós. Os vereadores começaram a notar nossa inquietação quando ouvimos um som de carro meio ao longe, mas não era o carro do prefeito. Alguma coisa de errado estava acontecendo. Aproveitei que a sessão não havia encerrado ainda e fiz sinal para o Tedo dar uma olhadinha na frente da câmara. Tedo saiu o mais discreto possível, se é que se podia ser discreto com duas pessoas abanando uma para outra de modo efusivo a todo momento. Tedo voltou mais rápido do que saiu, seu rosto estava diferente. Preocupado. Falou no ouvido de Taj que na mesma hora levantou a mão e pediu a palavra antes que a sessão encerrasse. Tedo chegou perto de mim e falou no meu ouvido.

– O prefeito foi sequestrado. O motorista dele está desmaiado perto do carro, já liguei para a ambulância e para a polícia, Taj vai tentar conversar com os vereadores enquanto isso, ou seja, só até os vereadores perceberem tudo com a chegada do socorro.

Engoli em seco, eu tinha pouquíssimo tempo para traçar o perfil dos vereadores. Entre aqueles sete, talvez um deles já soubesse do ocorrido e teria que demonstrar naturalidade, os outros talvez não soubessem de nada. Eu tinha muito pouco tempo. Taj começou a se apresentar. Tedo saiu novamente para fora da câmara e eu comecei a observar.

 

Capítulo 10

Todo mundo é suspeito

Uns mais do que outros.

 

Enquanto Taj falava sobre o trabalho que iriamos fazer (divulgar os potenciais da cidade em uma revista que tem unicamente por pauta o empreendedorismo e as ideias inovadoras das empresas da região) eu observava os vereadores, ninguém demonstrou agitação (é claro que ainda não sabiam do sequestro do prefeito) e mostrava-se bastante interessado na explicação de Taj. Comecei a fazer cálculos mentais. Os que não tinham nada haver com o sequestro deveriam demonstrar interesse pela Taj, mas um deles ou talvez mais de um (se for uma quadrilha) deveria disfarçar interesse pois este ou estes saberiam o que teria ocorrido com o prefeito. Fiquei fortemente concentrado nas reações de cada um. Alguém estaria fingindo interesse? Alannilsom que era o menos suspeitos ao meu ver era o mais fácil de analisar, ele achava tudo maravilhoso e tentava convencer os demais que seria muito bom para a cidade a divulgação na revista. Dona cotinha, a velha que eu não simpatizei, também estava bem concentrada e não notei nela nada que indicasse alguma coisa com o sumiço do prefeito. Os demais oscilavam entre uma atenção verdadeira e troca de olhares entre si, ora amigáveis, ora se estranhando. Taj olhou para mim, somente com o olhar me perguntou se eu já tinha uma resposta e também com olhar fiz sinal para ela ir enrolando mais um pouco. Ela retornou a conversa e deixou em aberto a palavra para que os vereadores pudessem questionar…. (Boa ideia eu pensei, assim que alguém perguntar alguma coisa isto me dará mais subsídios para compor o perfil de cada um) vários levantaram a mão pedindo a palavra, mas antes que alguém pudesse realmente falar, começou um barulho cada vez mais alto de sirenes na rua. Com certeza era os carros da polícia e ambulância para atender o motorista do prefeito. Os vereadores começaram a se levantar, curiosos para saber o que estava acontecendo, quando o delegado de polícia, acompanhado de um velho amigo nosso, detetive Cláudio entraram no salão principal da câmara e anunciaram:

– O prefeito Sarapião Rufus foi sequestrado. Pedimos a todos que permaneçam nas suas cadeiras pois queremos proteger cada um de vocês.

Houve um zum zum zum enorme que aos poucos foi se acalmando.  Taj voltou para o meu lado perguntou baixinho:

-Conseguiu descobrir alguma coisa?

– Não, todos parecem não saber nada do ocorrido, o culpado disfarça muito bem ou meu instinto não está funcionando muito bem.

– Pois a minha intuição diz que eu já vi esta história antes.

– Você quer dizer que eu não estou conseguindo resolver o problema porque não estou conseguindo traçar o perfil. Perguntei a taj

– Não se preocupe, não é com você. Seu instinto está funcionando muito bem, e minha intuição está bem convicta. Você está mais certo do que pensa e nós estamos mais perto de achar o culpado do que você imagina.

 

Capítulo 11

Mais um caso solucionado.

Eu estava certo.

 

Atenção: Esta é uma obra de ficção, os nomes e as imagens são meramente ilustrativa e não tem nenhuma relação com pessoas ou acontecimentos da vida real.

 

Taj havia falado com tanta convicção que não tive argumentos para confronta-la. Continuei observando os vereadores enquanto Taj saia para a rua. Aquilo foi como uma senha para que todos levantassem e a seguissem. Em poucos minutos o plenário estava vazio.

Lá fora os carros da polícia estavam estacionados, mas os policiais meio que não sabiam o que fazer, nem para onde ir. O motorista do prefeito estava sendo atendido pela ambulância pois havia sido agredido durante o sequestro. Taj foi em direção a ele e os policiais a seguiram.

Ela gritou para o motorista

– Fale a verdade. Você foi agredido pelo próprio prefeito. Tudo isto não passa de uma simulação. O prefeito quer nos usar para descobrir coisas contra ele e simulou isto para que pudéssemos suspeitar de todos e assim nos esforçar mais a procura de alguma informação.

O motorista estava espantado. Seus olhos demostravam surpresa e medo. Taj continuou

– Ligue para ele, diga que já descobrimos tudo e para ele não perder tempo com este joguinho medíocre. Caso ele apareça logo poderemos relevar tudo isto e dizer que foi só uma jogada de marketing para a revista e para a cidade, tipo assim “aqui é tão seguro que para dar um pouco de aventura para os nossos visitantes, simulamos uma ocorrência policial e assim destacarmos…  blá blá blá….. Ok.  Mas se ele insistir nessa farsa toda, daí o bicho vai pegar, pois nós trabalhamos de forma certa, não toleramos armações.

O motorista tinha entendido o recado. Ainda indeciso pegou o celular e ligou para o prefeito. Passou o recado de Taj. Eu fique acompanhando a ligação enquanto taj, certa de que estava certa, já estava conversando com os policiais e alguns vereadores que tinham se aproximado e já estava passando uma nova versão do acontecimento.  Que tudo não tinha passado de uma jogada de marketing para mostrar como eram eficientes a polícia e o atendimento médico daquela cidade e que o prefeito iria explicar tudo certinho amanhã sem falta.

A coisa foi se acalmando. O caso estava resolvido. Voltamos para o hotel. Mais uma vez Taj me surpreendeu. Fiquei pensando como ela tinha resolvido tudo e antes que eu perguntasse ela me falou.

Você tem que confiar mais nos seus instintos. Quando você disse que não conseguia perceber culpa em ninguém, você estava certo. Ninguém tinha culpa. Quando você disse que todos estavam se comportando normalmente era porque era isto que realmente estava acontecendo. Você achava que tinha alguma coisa errada pois não conseguia encontrar o culpado, mas você estava certo é porque não havia culpado. Ou seja, em todo momento seu instinto estava certo. Sua capacidade de dedução estava certa. Mas você não confiava nela e por isso não percebeu o que estava acontecendo.

– Não tinha pensado assim eu achei…

Você achou certo só não confiou no seu julgamento. Eu notei que você não simpatizava com o prefeito, mas com os demais políticos você não encrencou então eu resolvi confiar no seu julgamento e deixei de lado os políticos e mirei no prefeito. Era uma cartada arriscada dizer aquilo para o motorista, pois se eu estivesse errada teria muito que explicar, mas mais uma vez, confiar em você e em suas habilidades se mostrou uma atitude certeira.

Eu fique em silencio, pensando em mim mesmo e em minhas capacidades. Quantas vezes em nossa vida não passamos por situações assim. Quanta coisa poderíamos fazer a mais se confiássemos mais em nós mesmos. Realmente resolvi um caso mesmo achando que não estava conseguindo resolver nada. Mas bastou alguém confiar em mim mais que eu mesmo que meu melhor foi mostrado.

Vou começar a me “notar” mais. Começar a me “seguir” mais. Eu tenho um potencial enorme que precisa ser explorado. Ponto. E você também.