deise duarte ser campeã

Ser campeã

Lembro-me dos fins das aulas de educação física, quando os alunos voltavam exaustos e suados para a sala de aula gritando “É campeão!”

Também tenho memória de não ter sido campeã muitas vezes, já que minhas habilidades físicas nunca foram destaque e, cruelmente, eloquência e sagacidade não são adjetivos quando você tem onze anos.

Eu queria ser campeã em algum esporte, mas me dava por contente de me manter viva por aqueles intermináveis 45 minutos.

Se nós estudássemos juntos e você fosse um destaque na aula de educação física, eu teria inveja de você. Eu desejaria ser você. Eu ia querer ser sua amiga só pra poder de alguma forma, ter um laço com o campeão.

Eu ficaria ao seu lado na entrega de medalhas e ia rezar pra que você me colocasse no seu time já que o maior pesadelo da minha infância era ser desprezada na divisão dos times.

Uma vez, em um jogo de futebol fiz meu primeiro e provavelmente único gol da vida. Ainda recordo a emoção de ter pessoas ao meu redor, gritando o meu nome quando acordei. (Não, eu não estava sonhando. O gol só aconteceu porque a bola acertou em cheio o meu olho direito e me deixou tão zonza que desmaiei). Só naquele dia, minutos depois do pós desmaio, eu era a estrela do time.

Passei o muito tempo desejando fazer mais gols porque achava que essa era a única forma de ser campeã.

Até que hoje, anos depois quando a ambição de balançar as redes já se desfez, fui chamada de campeã.

Estava completando uma série de abdominal remador, suando como aluno de quinta série, exausta como a senhora de cem anos que meu corpo insiste em dizer que sou, e meu personal parou na minha frente e disse: “Vamos lá, campeã”

Eu fiquei emocionada e constrangida. Meu conceito de campeã hoje se resume em dobrar lençol de elástico e manter os boletos em dia.

Porém hoje, fiz 90 abdominais.

Hoje eu fui campeã.

Amanhã a gente volta a pagar boleto e dobrar lençóis.

deise campea